Refresque a sua Prática com a Meditação de Amor Bondade

Por Ajahn Brahmavamso, tradução livre de Gabriel Laera

“A palavra que o Buddha usava para amor-bondade é mettā. Tal palavra se refere a uma emoção, ao sentimento de boa vontade que pode sustentar pensamentos que desejam a felicidade a outrém, e que intencionam perdoar qualquer erro. Minha expressão favorita de mettā é a norteada pelas palavras “a porta do meu coração está completamente aberta para você, para sempre, não importa quem você seja ou o que você tenha feito”. Mettā é amor sem um eu, surge da inspiração, sem esperar nada em troca, e de forma incondicional. O Buddha comparava mettā com o amor de uma mãe por seu filho (Karaniya Metta Sutta). Uma mãe pode não sempre gostar de seu filho ou concordar com tudo o que ele faça, mas ela sempre terá carinho e desejará apenas felicidade a ele. Tal bondade abrangente, indiscriminada e liberadora é mettā.

Na meditação de mettā você concentra a sua atenção no sentimento de amor-bondade, cultivando tal emoção prazerosa até que preencha toda a sua mente. A forma que isto é alcançado pode ser comparada a forma que se acende uma fogueira. Começa-se com papel ou qualquer outra coisa que seja fácil de acender. Então adiciona-se coisas pequenas, palhas ou fibras de madeira. Quando estas estão em chamas então adicionam-se peças mais grossas de madeira, e após um tempo peças de lenha mais grossas. Uma vez que o fogo está queimando forte, pode-se até adicionar galhos úmidos e verdes e eles logo queimam.

Mettā poder ser comparado de forma precisa com uma fogueira quente e radiante em seu coração. Você não pode esperar acender a fogueira de amor-bondade começando fósforos debaixo de uma grossa tora de madeira. Da mesma forma, você não começa a meditação de mettā irradiando este sentimento para si mesmo ou para um inimigo. Ao invés disto, comece irradiando amor-bondade para algo que é fácil de se acender com amor-bondade.

Eu me preparo para meditação de mettā estabelecendo a minha plena atenção no momento presente, estabelecendo o primeiro estágio do método básico de meditação (confira aqui o texto em português). Então começo a meditação de mettā imaginando um pequeno gatinho.

Eu gosto de gatos, especialmente quando filhotes, então meu gatinho está para o amor-bondade como gasolina está para a fogueira. Eu apenas preciso pensar no meu pequeno gatinho e meu coração se acende com mettā. Continuo a visualizar meu amigo imaginário, visualizando-o abandonado, faminto e muito assustado. Em sua curta vida ele apenas encontrou rejeição, violência e solidão. Eu imagino que seus ossos sobressaem seu corpo emaciado, seu pelo está manchado com fuligem e um pouco de sangue, e seu corpo rígido de terror. Eu considero que se eu não cuidar deste pequeno e vulnerável ser ninguém o fará, e ele morrerá de forma tão horrível, solitária e terrível. Eu sinto plenamente a dor deste gatinho, em todas as suas formas, e meu coração se abre liberando uma torrente de compaixão. Eu cuidarei deste gatinho. Eu o protegerei e o alimentarei. Eu imagino a mim mesmo olhando profundamente em seus olhinhos ansiosos, tentando desfazer sua apreensão com o sentimento de mettā que flui de meus próprios olhos. Eu me aproximo vagarosamente, me assegurando de não perder o contato visual. De forma gentil, eu pego este gatinho e trago-o para meu peito. Eu acabo com o frio do gatinho com o calor de meu próprio corpo, e mando embora seu medo com a maciez de meu abraço, eu sinto a confiança do gatinho crescer. Eu digo para o gatinho no meu colo:

“Pequeno, nunca mais se sinta sozinho. Nunca mais sinta-se tão amedrontado, eu sempre cuidarei de você, serei seu protetor e amigo. Eu o amo, pequeno gatinho. Onde quer que você vá, o que quer que você faça, meu coração sempre o receberá. Eu lhe dou meu amor-bondade, de forma ilimitada e para sempre”

Sinto meu gatinho se aquecer, relaxar e finalmente ronronar.

Isto não é mais que um resumo de como começo minha meditação de mettā. Normalmente leva muito mais tempo. Uso minha imaginação e comentário interno para revelar uma imagem em minha mente, criar um cenário onde as primeiras chamas de meta possam surgir. No fim desde exercício mental, meus olhos ainda estão fechados, eu concentro minha atenção na região ao redor do meu coração e sinto o primeiro calor da emoção de amor-bondade.

Meu gatinho é com o papel que você usa para começar uma fogueira. Talvez você não goste de gatinhos, então escolha alguma outra coisa, um filhote de cachorro ou um bebê talvez. O que quer que você escolha como seu primeiro objeto de mettā, faça-o com um ser imaginário, não real. Na sua mente você pode criar um gatinho, um cachorrinho ou qualquer outra coisa que você goste. Você tem mais liberdade para gerar mettā quando usa uma criatura fantasiosa do que uma do mundo real. Meu gatinho imaginário ronrona na hora certa e nunca suja o meu colo. Tendo escolhido seu primeiro objeto, use seus poderes de imaginação para criar uma história em torno daquele ser que alimenta o seu amor-bondade. Com a prática este método inovador se torna um dos modos mais bem sucedidos e agradáveis de se começar a sua meditação de mettā.

Há alguns anos atrás uma estudante reclamou comigo que este método não funcionava com ela. Ela considerava filhotes, especialmente os maldosos gatinhos, pequenas pestes, e nem mesmo ela gostava de “bebês chorões-pedintes-de-colo-sujadores-de-fralda”. Ela tinha um caso severo de bloqueio de mettā. Ela continuou e me contou que no seu apartamento em Sidney ela cultivava flores em vasos. Então eu sugeri que ela escolhesse uma de suas plantas como primeiro objeto de mettā. Ela imaginou uma pequena muda bem delicada e jovem. Uma muda tão frágil que necessitava de todo o seu cuidado, amor e proteção para sobreviver. Ela direcionou todos os seus instintos maternais para aquela pequena e vulnerável planta, alimentando e nutrindo sua amiga planta até que os primeiros botões surgissem para lhe retribuir a bondade com uma bela e perfumada flor. A estudante realmente levou a frente este método. Aquela foi a primeira vez que a meditação de mettā funcionou para ela. Durante o retiro em que isto aconteceu ela disse que aquela era a única sessão em que ela não ansiava pela toca do sino que concluía a prática.

Após o estabelecimento das primeiras chamas de mettā através deste método, abra mão de sua criatura imaginária trocando-a por uma pessoa real, alguém bastante próximo de você emocionalmente como seu parceiro(a), um parente amado, ou mesmo seu melhor amigo. Deve ser alguém para o qual seja fácil de se gerar e sustentar amor-bondade. Na metáfora da fogueira, eles serão os pedaços de madeira mais finos, gravetos. Mais uma vez use a mesma fala interior para criar uma imagem em torno deles em sua mente. Eles também precisam de sua amizade e amor. Eles são também emocionalmente vulneráveis, sujeitos aos desapontamentos e frustrações da vida. Usando o seu comentário interior diga:

“Querido amigo, eu sinceramente lhe desejo felicidade. Possa seu corpo estar livre da dor e sua mente encontrar contentamento. Eu lhe dou meu amor de forma incondicional. Eu sempre estarei ao seu lado. Você sempre terá um lugar em meu coração. Eu verdadeiramente tenho carinho por você”

– ou palavras parecidas, da sua escolha. Use quaisquer frases que estimulem o brilho aquecedor de mettā em seu coração. Mantenha esta pessoa consigo. Imagine que estão todos a sua frente até que mettā cresça em brilho e de forma constante em torno deles. Agora, por um instante coloque a sua atenção no seu corpo, perto de seu coração e sinta a sensação física associada com mettā. Você descobrirá que é algo prazeroso.

Deixe de lado a imagem daquela pessoa e a substitua por outras pessoas próximas a você, criando o sentimento de mettā ao redor destas usando a sua fala interior da mesma forma:“Possa você viver feliz…” Imagine-os a sua frente até que o brilho de mettā em volta deles se torne constante e forte.

Em seguida substitua todo um grupo de pessoas, talvez todos aqueles que moram com você. Cultivando o brilho cuidadoso de mettā ao seu redor, da mesma forma: “Possam vocês estarem bem e felizes…” Na símile da fogueira você agora está colocando a lenha.

Veja se você consegue imaginar mettā como um irradiar dourado emanando da bela lótus branca no centro de seu coração. Permita que esta radiância de amor-bondade se expanda à todas as direções, abraçando mais e mais seres até que se torne ilimitada, preenchendo tudo o que se possa imaginar. “Possam todos os seres, próximos ou distantes, pequenos ou grandes, serem felizes e estarem em paz…” Derrame por sobre todo o Universo o calor da luz dourada de amor-bondade. Fique nisto por um tempo.

Na símile da fogueira, o fogo agora está bem forte e você agora pode queimar os troncos úmidos e verdade. Pense em um inimigo. Visualize alguém que o tenha magoado seriamente. Você se surpreenderá que neste ponto seu sentimento de mettā está forte o suficiente para perdoa-los. Você agora é capaz de compartilhar o brilho dourado de amor-bondade com eles também:

“Amigo, o que quer que você tenha feito a mim, vingança de nada ajudará a nenhum de nós, em vez disto eu lhe desejo o bem. Eu sinceramente lhe desejo a liberdade da dor do passado e toda a alegria no futuro. Possa a beleza deste amor-bondade incondicional alcançá-lo também, trazendo-o felicidade e contentamento”.

Quando o fogo de mettā queima forte, nada pode resistir. Em seguida, há o último “galho verde e úmido” a ser colocado nesta fogueira. A maior parte dos meditadores descobre que a pessoa mais difícil de ser alvo de seu amor-bondade é … eles mesmos.

Imagine que você está olhando para si mesmo num espelho. Diga com sua fala interna e de forma completamente sincera:

“Eu desejo o bem a mim mesmo. Eu dou-me agora o presente da felicidade. Por muito tempo a porta de meu coração esteve fechada para mim; agora eu a abro. Não importa o que eu tenha feito, ou venha a fazer, a porta do meu amor próprio e respeito está aberta para mim. Eu perdôo a mim mesmo sem reservas. Que eu volte para casa. Eu agora dou-me o amor sem julgamento. Eu tenho carinho por este ser vulnerável chamado “eu”. Eu abraço tudo em mim com o amor bondoso de mettā”.

Invente as suas próprias palavras para que o calor de amor bondade penetre fundo em você, até a parte que é mais amedrontada. Deixe que seja derretida toda a resistência até que você se unifique com mettā, amor bondade sem limites, como o carinho de uma mãe por seu filho.

Antes de encerrar a meditação de mettā, dê uma pausa por um ou dois minutos e reflita como se sente. Note o efeito que esta meditação teve em você. A meditação de mettā pode produzir um prazer divino.

Para trazer a meditação para uma conclusão elegante, mais uma vez imagine mettā como um brilho dourado irradiando da bela lótus branca localizada em seu coração. Visualize a luz dourada voltando para a lótus, deixando o calor do lado de fora. Quando o brilho dourado se tornar como uma esfera condensada de energia incandescente no centro da lótus branca, imagina as pétalas se fechando ao redor deste globo de mettā, guardando a semente do amor bondade dentro de seu coração, pronta para ser mais uma vez liberada em sua próxima meditação de mettā. Abra seus olhos e levante-se vagarosamente.

Amaciando a mente

A meditação de mettā amacia a mente e a direciona para o carinho, boa vontade e aceitação. Você se torna menos egoísta, menos preocupado com as próprias necessidades e mais disposto a interagir de forma pacífica com os outros. A emoção que é mettā é prazerosa e pura. Conforme você a cultiva repetidas vezes, ela logo se mantém constante em seu coração. Você se torna uma pessoa compassiva, e sua bondade uma fonte de alegria para todos os seres e si mesmo.

Mettā permite que você acolha o outro sendo justamente como ele é. A maior parte das pessoas acha isso impossível devido às suas mentes implicantes, que buscam problema em tudo. Eles apenas vêem parte do todo, a parte imperfeita, e se recusam a aceitá-la. Por outro lado, o amor-bondade acolhe a integralidade das coisas aceitando-as como são. Através da prática da meditação de mettā, você se verá se tornando uma pessoa menos preocupada com as falhas em si mesmo e nos outros seres, e mais acolhedor ao modo que estes são. Esta habilidade de se ver a beleza em um objeto e ignorar suas imperfeições é um aditivo especial para todos os tipos de meditação. Para sustentar a sua atenção no momento presente, por exemplo, deve-se aceitar o modo que as coisas são neste momento, acolhendo este instante e não sendo crítico. Quando você insiste em procurar falhas no momento presente, você verá que simplesmente não consegue permanecer nele.

É possível combinar a meditação de meta com a atenção plena à respiração (anapanasati). Quando você começa o terceiro estágio do método básico de meditação (fazer nota ao fim), a plena atenção na respiração, observe o seu respirar com amor bondade. Pense algo como

“Caro respirar, a porta do meu coração está aberta para você, não importa como você se sinta, não importa o que você faça”

Você logo estará olhando para o seu respirar com compaixão, acolhendo-o como vier em vez de procurar defeitos. Ao adicionar mettā ao processo de plena atenção, você não tem expectativas, desde que o respirar parecerá mais que satisfatório para você. Devido ao amor-bondade você logo sentirá este calor atrativo em direção ao respirar que traz alegria para todo o inspirar e expirar. Torna-se tão agradável observar o seu respirar que em pouco tempo ter-se-á alcançado o quinto estágio, do belo respirar.

Trazendo Mettā para Jhana

Jhanas são picos emocionais e não alturas intelectuais. Você não pode alcançar jhana com um pensamento, você apenas pode chegar lá com sentimento. Para ser bem sucedido você precisa ter familiaridade com seu mundo emocional, o bastante para confiar neste silenciosamente e sem qualquer controle. Talvez este seja o porquê de meditadoras parecerem entrar em jhana mais facilmente que meditadores. A meditação de mettā treina todos a lidarem mais facilmente com o poder das emoções. Algumas vezes você poderá chorar durante a meditação de mettā, ou mesmo cair em prantos . Se isto acontecer, deixe vir. No caminho para nibbana todos nós temos que aprender a acolher a intensidade das mais puras emoções, e os jhanas são as mais puras das emoções. Desta forma a meditação de mettā torna jhana mais acessível.

Você poderá até mesmo levar a meditação de mettā diretamente para jhana. Quando tiver alcançado o estágio descrito anteriormente em que você irradia este brilho ilimitado de amor bondade através de todo o universo, alcançando o estágio descrito anteriormente em que você irradia este brilho ilimitado de amor-bondade através de todo o universo, alcançando todos os seres sencientes com o imenso poder de seu amor sem limites, então dê mais um passo. Esqueça todos os seres e ignore de onde o poder venha. Concentre sua atenção em vez disto na experiência de mettā em si mesma. Este passo geralmente acontece automaticamente sem que nenhuma decisão venha de você. O objeto de meditação é simplificado, livre da percepção de seres separados. Tudo o que sobra em sua mente é o que chamo de mettā sem corpo, com a cauda sem corpo do gato de Chesire na símile do capítulo 2 [em que Aj. Brahm cita um trecho do conto de Alice no País das Maravilhas]. Você experimenta isto como uma prazerosa esfera de uma maravilhosa luz dourada no seu olho mental. E isto é uma nimitta. Isto é uma mettā-nimitta.

Uma nimitta gerada através da meditação de mettā é sempre incrivelmente bela, apenas algumas vezes não é tão estável. Agitação é o problema na maior parte das vezes. No entanto, a sua natureza é tão encantadora que você não resiste segurar tão imensa alegria. Desta forma, em pouco tempo a nimitta brilhante e dourada se torna estável e você cairá em jhana. É assim que a meditação de mettā leva até jhana.

Irradiando Mettā após Samādhi Profundo

Muitos anos atrás em meu monastério em Perth estávamos recitando os versos do Buddha para irradiar amor-bondade. O cântico dura apenas cinco minutos e eu estivera meditando profundamente antes. Quando começamos o cântico minha mente se preencheu com mettā tão completamente que não fui capaz de continuar o cântico. Mettā sem limites emanava de mim em uma torrente por todas as direções, e eu tornei-me felizmente imerso naquilo. Nunca completei aqueles versos. Minha mente se tornar tão macia e gentil devido as meditações antecedentes que as palavras originai do Buddha sobre como irradiar amor-bondade desencadearam um irrepreensível emanar de mettā.

Experiências como esta me ensinaram que deve-se primeiro treinar a mente em samādhi; estabilidade atenciosa, e então você poderá espalhar amor-bondade de forma bastante poderosa. Após estabelecido o samādhi você poderá “golpear” qualquer um em qualquer lugar com mettā super poderoso! Ao fim dos retiros de meditação que oriento, convido meus alunos a tentar isto. Muitos de meus alunos têm mentes poderosas na conclusão de um retiro. Eu os guio em uma meditação de mettā, e quando sinto que o poder está forte o suficiente, os convido a “golpear” um amigo ausente com mettā superpoderoso. Prefiro que eles escolham alguém bem longe do centro de retiros. Então olho no relógio e anoto a hora. Ao fim da sessão de mettā eu informo aos alunos o horário anotado e sugiro-os que mais tardem contactem os amigos escolhidos e lhe perguntem o que se estava fazendo naquela hora e como se sentiam. Muitos dos meus estudantes me ligam nos dias seguintes para contar com excitação: “Funcionou!”. Quando amor-bondade é enviado a partir de uma mente com o poder de samādhi, ele será recebido. Tente você mesmo.”

Fonte da tradução para o português: Blog Dhammarakkhita

Fonte do original: “Mindfulness, Bliss & Beyond: A Meditator’s Handbook” Ajahn Brahm