Meditação Vipassana

Autor: Dom Kulatunga Jayanetti

(Budismo Theravada)

Texto distribuído aos participantes do retiro de carnaval de 1988

Vipássana – Insight – Vigilância – Plena Atenção – Observação Pura, são sinônimos da principal meditação do Budismo – o caminho da correta compreensão – o caminho do meio – o caminho dos nobres oito fatores. Eles são chamados de “Nobres” no sentido de correto, completo, total: 1. Compreensão Correta, 2. Pensamento Correto, 3. Palavra Correta, 4. Ação Correta, 5. Meio de Vida Correto, 6. Esforço Correto, 7. Vigilância Correta e 8. Concentração Correta.

A cada momento, esses oito fatores estão simultaneamente em nossa vida; mais exatamente, eles são a nossa vida. Então, colocar esses oito fatores, ou seja, nossa vida, no lado positivo, nada mais é do que, simplesmente, Budismo – o caminho da correta compreensão.

Iniciamos esse caminho com a compreensão que temos e com a finalidade de atingir a Correta Compreensão ou Iluminação. O que representa uma penetração naquilo que está além de quaisquer estruturas ou sistemas filosóficos, sociais ou religiosos. É claro que na nossa vida são os pensamentos que criam tudo o que fazemos: eles vêm da compreensão ou noção neste instante, “aqui e agora”. A compreensão vem da intuição sem conceitos ou palavras. E por outro lado, é pelo intelecto que estabelecemos a comunicação através das palavras e conceitos. Intuição e intelecto são dois aspectos da mente que sempre funcionam juntos.

Desenvolvemos nosso intelecto com palavras e conceitos: ouvindo, lendo, discutindo, e estas coisas são guardadas na memória cerebral. Para desenvolver intuição, o único caminho é através da Observação Pura – Vigilância, o ato de manter a mente desperta em relação a tudo que surge. Este é o treinamento que traz felicidade e maior compreensão.

Na vigilância, para cada observação, temos uma multiplicidade de percepções, vemos os mais diferentes aspectos. Desta forma, adquirimos uma visão clara e a compreensão sobre o assunto do momento; temos também, mais autoconfiança, autocontrole e melhor noção de como agir corretamente. É a vigilância que nos permite pensar e agir de modo mais decisivo, ver as coisas e pessoas de maneira mais nítida e menos envolvida. É pela vigilância que nos liberamos das influências egoístas, que nos conduzem ao envolvimento e conflitos.

Desse modo, o choque entre pensamentos contraditórios do passado (nossos conceitos e convicções), do presente, ou do futuro (idéias e esperanças), é o que chamamos de conflito. Este choque provoca sofrimento, que por sua vez, é um outro pensamento do qual somos normalmente ignorantes. Vigilância é então consciência de um pensamento, ou seja, um pensamento entre a multiplicidade de pensamentos (percepções), como bem e mal, agradável ou desagradável, devendo ser constatada também a presença ou a ausência de cada uma destas percepções.

Vigilância é a consciência de um pensamento entre pensamentos, que aparecem ou desaparecem sempre devido ao apego ou a aversão. Os pensamentos podem ser elevados ou baixos, interiores (consciência sobre a consciência), ou exteriores (consciência sobre os objetos da consciência). Mas afinal de contas, todos são pensamentos, as manifestações da consciência – vida.

Sabemos que tudo isso é verdade, mas mesmo assim, somos tão condicionados e não educados para dar importância ao treinamento e desenvolvimento de nossas potencialidades de vigilância inerente em nós, que nos deixamos ser manipulados como robôs e computadores por esta perpétua corrente de apego e aversão. Temos que acordar e ver a realidade do envolvimento com o sofrimento. Não há necessidade de sofrer. Temos que aproveitar esta vida curta e insegura para nos estabelecermos na Vigilância Correta, pois esse é o nosso único refúgio e o melhor meio de ajudarmos a humanidade, o universo, que é composto de cada um de nós, para vivermos felizes e nos libertarmos deste sofrimento da existência.

Porém, o que está faltando é a revitalização do “Elo” da vida: a Vigilância. Mas vigilância é apenas um dos oito fatores da vida. Para ter vigilância correta – no lado positivo – devemos também trabalhar positivamente os outros sete fatores. Eles são agrupados em três fundamentos da vida: Moralidade ou Vida Ética, Concentração e Sabedoria.

Na moralidade, estabelecemo-nos com a palavra correta, a ação correta e o meio de vida correto. Sem moralidade não temos concentração correta, que é baseada no esforço correto e na vigilância correta. Esta ação nos abre a intuição para o fluxo da Sabedoria – compreensão e pensamento correto – que nos leva aos outro sete fatores da vida, pois todos eles são interligados.

O nível de compreensão que temos é suficiente para examinarmos e vermos como estamos vivendo envolvidos em nossos apegos, dores, aflições, etc. Mas, sempre buscando a felicidade (mesmo que a maioria de nós, cegos pela neblina dos condicionamentos, estejamos inconscientes desta busca). Temos que começar com o que compreendemos. A lei universal de cousa e efeito nos mostra claramente que fazendo o mal, nos sentimos mal e recebemos o mal. Colhemos o que semeamos.

Assim, a nossa primeira meta será nos estabelecermos na Moralidade – palavra correta, ação correta e meio de vida correto. O pensamento surge na memória, onde reside nosso condicionamento e educação, e é através do pensamento que somos levados a fazer o bem ou o mal. Portanto, temos que reeducar e recondicionar a nossa mente de forma positiva, com espírito de renúncia, compaixão e amor – o oposto de egoísmo, raiva, inveja.

Esta tarefa de auto-purificação funde-se no ato de amar a mesmo e aos outros. Contudo, a prática da meditação de Amor Universal fortalece os nossos pensamentos no lado positivo, equivalente à medida de freqüência dessa prática. A meditação de Amor Universal fortalece, também, os pensamentos de amor na memória; e o fluxo desses pensasmentos, ficando dominantes, torna o estabelecimento na moralidade o fruto de sua natureza.

Temos que compreender que o amor é o oposto de ódio e crueldade. Então, amor é a vontade de felicidade, e é pela força da vigilância que deixamos de odiar ou ser cruel. Nesse sentido, devemos educar nossa mente sobre a importância da vigilância para ter amor. Assim, estaremos completando a força desta vigilância e tornando-a mais perene. Praticando a vigilância, estamos diminuindo a ignorância do mundo em nós, e em todas as pessoas através de nossas vibrações. Este é, também, um ato de profunda caridade e amor.

Nossa vida é consciência, ou seja, as diferentes manifestações da consciência. Se não temos pensamentos como “sou consciente”, estamos vazios como um morto. Desta forma, o pensamento é nossa vida, e ele surge por causa do apego, de cujo aparecimento somos ignorantes, inconscientes.

O fluxo de apego e aversão alimentados pela ignorância nos leva à ilusão de individualidade como um ser nesta existência, separando-nos da consciência cósmica. Somos enganados por essa realidade e pela velocidade com que os pensamentos surgem na memória, onde estão a educação e os condicionamentos que recebemos no passado para vivermos como egoístas, dependentes e prisioneiros…

Agora, se não nos reeducarmos e nos exercitarmos no amor, independência e libertação, continuaremos presos nessa roda da vida, que é esta ciranda de existência-sofrimento, e a corrente de apego e aversão – pensamentos. Então, esta corrente de pensamentos assume de novo o controle de nossa vida, agitando e afligindo a mente. Como a água se turva com as ondas formadas pelo vento.

Temos que compreender este drama da vida. Precisamos da compreensão correta – clara visão – para sermos felizes. Resumindo toda a doutrina Buda falou: “Vigilância é o único caminho”. Praticando, treinando e focalizando a mente na vigilância, vemos a natureza das coisas como elas são. Como todos os fenômenos condicionados são impermanentes, insatisfatórios, sujeito a sofrimento e onde não existe nada para ser tomado como indivíduo ou matéria.

Quando nos aproximamos desse estado de compreensão, podemos sentir como se as coisas não andassem bem. No entanto, esta não é necessariamente uma prova de que elas não estão indo bem, mas pode ser um sinal de progresso, um sinal de que estamos começando a perceber a realidade.

Contudo, a própria atitude de auto-crítica e de analisar ou avaliar o progresso, representa um envolvimento com os pensamentos gerados pelo apego. Como por exemplo, a ambição de ser alguma coisa ou alcançar determinado estado.

Devemos permanecer firmemente na determinação de que “o único propósito é o de nos estabelecermos na vigilância: observação da consciência no momento presente, no que está ocorrendo aqui e agora”. Embora isso não deva ser uma análise dirigida pelos conceitos. Mas visa, ao contrário, a impressão do silêncio na mente. A observação daquilo que é, com total imparcialidade. Pensar é alimentar o egoísmo e a neurose. Devemos observar o pensamento sem suporte. Observar a rapidez da mente, o silêncio da mente. À medida que cada objeto (pensamento) surge na consciência através de qualquer uma das seis entradas (os cinco sentidos e a memória (mente)). Esse pensamento deve ser visto assim como é, sem nos identificarmos com ele ou rejeitá-lo, apenas visto como “um pensamento”, dos pensamentos. É como estar vendo diferentes cenas de um filme passando; e, observar com total consciência o seu surgimento, a presença e a passagem de qualquer pensamento. Como sensações, percepções, sentimentos, idéias. Buda assim resumia isto: “ver e saber apenas como a visão no que é visto, ouvir e saber apenas a audição no que é ouvido”. Dá-se o mesmo nos outros sentidos.