Dedicação ou Transferência de Méritos


Por Bhante H. Gunaratana Mahathera

“Méritos” querem dizer habilidades. Quando você tem habilidades você as pode compartilhar com outras pessoas. No sentido direto da palavra, “méritos” significam aquilo que você pode vender ou comprar de outros. Por exemplo, você é promovido no seu emprego ou graduado nos seus estudos, de acordo com seus méritos. Da mesma forma, no campo espiritual, as coisas que você faz para promover sua paz e felicidade, estas são chamadas ações meritórias. São estas ações que elevam o seu nível espiritual e o guiam para alcançar a iluminação. Estes méritos espirituais são cometidos com um estado mental puro que o seguirá como uma sombra e jamais o deixará. Quando você faz um exercício de devoção (vandana) você o faz com um estado mental puro, ao admirar e apreciar as qualidades da Tripla Jóia, aspira-se emular e adota-las na sua própria vida. Quando você faz tal esforço consciente de unificá-las a sua mente, você cria espaço para estas qualidades e esforça-se para viver uma vida similar a dos nobres que são personificações de paz e felicidade.

Ao cultivar estas nobres qualidades você deseja compartilha-las com seus entes queridos, conhecidos e até mesmo aqueles que você não conhece. Compartilhar o que você mais aprecia e admirar junto com os outros é um ato muito generoso e compassivo. Desta forma, na Tradição Budista compartilhar méritos com outros é um ato meritório que se chama transferência de méritos, ou anumodana em pali. Regozijar-se com os méritos dos outros é também um ato meritório, o que significa que você apóia e promove pensamentos, palavras e ações saudáveis da sua parte e também da parte de outros. Conforme você o faz com intenção pura, este tipo de ação saudável chama-se kamma saudável. O que você realmente faz durante a devoção (vandana) é esforçar-se para cultivar o pensamento de praticar o Nobre Caminho Óctuplo. Ao aceitar a Tripla Jóia como seu único guia e determinando-se a praticar os preceitos, você dá as bases da moralidade (sila). Ao contemplar as qualidades da Tripla Jóia, refletindo sobre a natureza de todas as coisas condicionadas, e recitando os versos com Concentração Correta, você desenvolve a atmosfera espiritual para dar os passos na prática da meditação. Tudo isto são pensamentos meritórios.

As pessoas realizam muitas cerimônias de transferência de méritos em memória de parentes falecidos, de forma a purificar as suas próprias mentes. Geralmente realizam doações para templos ou para os menos favorecidos, observam preceitos ou ensinam o Dhamma. Alguns até se ordenam por um curto período, estando em um monastério. Ao fazer uma ou mais destas coisas, os parentes ou pessoas próximas realizam uma cerimônia após sete dias, três meses, ou um ano em memória do falecido.

Antes de a cerimônia começar, as pessoas enchem um jarro com água limpa e o tem a sua frente durante os cânticos. Também se tem duas tigelas, uma menor dentro de uma maior. Ao fim da cerimônia, os parentes ou pessoas próximas do falecido entornam água do jarro ou sobre a tigela menor, dentro de uma tigela maior recitando o verso “Possam meus falecidos entes queridos compartilhar destes méritos”, em pali “Idam me naatinam hontu sukkhita hontu naatayo”, deixando a água transbordar da tigela menor, simbolizando assim a generosidade dos parentes e pessoas próximas ainda vivas. A água simboliza a vida, pois onde há água, há vida e a água também representa, nesta cerimônia os méritos sem os quais ninguém pode estar em paz e ser feliz, da mesma forma que sem água não pode-se sobreviver. Da mesma forma que a água dá vida aos seres, os atos meritórios dão aos seres vitalidade para se viver. A tigela vazia representa o parente ou ente querido falecido, que está vazio de felicidade. Da mesma forma que o jarro enche a tigela com água, a mente do falecido será preenchida com alegria e felicidade após a transferência de méritos. É claro, nem todos os entes queridos e parentes que partem estarão em condições de compartilhar nossos méritos. Podem compartilhar de nossos méritos somente aqueles que renascem em um estado infeliz de existência chamado de “espíritos que subsistem das oferendas dos outros”, em pali paradattupajivi peta. Durante a cerimônia de transferência de méritos, versos são recitados por monges ou monjas até se terminar de se derramar a água sobre a tigela vazia.

Esta cerimônia de méritos, de acordo com o Tirokuddha Sutta, foi ensinada pelo Buda em pessoa para ajudar o Rei Bimbisara de Magadha a compartilhar os méritos com seus parentes falecidos que haviam renascido entre os espíritos que subsistem das oferendas dos outros, ou paradattupajivi peta.

Traduzido do livro “Bhavana Vandana – Book of Devotion” Compilado por Bhante H. Gunaratana Mahathera.

SADHU SADHU SADHU!!!

Khp. 7. Tirokudda Sutta

Nos muros, do lado de fora, eles habitam, e também nas esquinas e encruzilhadas,

Nos portões eles permanecem, após retornar para seus antigos lares.

Mas quando uma refeição, farta em alimentos e bebidas, é ali servida,

Ninguém lembra deles: este é o kamma dos seres falecidos

Então, aqueles que têm compaixão por seus parentes falecidos

Oferecem-lhe freqüentemente alimentos e bebidas

– de boa qualidade e limpos –

[Com o pensamento:] “Possa isto ser oferecido aos meus entes queridos, Possam eles serem felizes!”

E aqueles que se reúnem diante de tal oferenda,

Sombras reunidas de seus entes falecidos,

Com gratidão oferecem em retorno as as suas bênçãos pela generosa porção de alimentos e bebidas:

Possam meus descendentes e parentes ter uma vida longa

Pois deles recebemos tais presentes.

Fomos honrados,

Sejam recompensados aqueles que nos presentearam!

Pois [neste reino de existência] não há:

Nem plantio nem colheita,

Nem criação de rebanhos,

Nem comércio,

Nem trocas com dinheiro,

Ali vivem com o que é aqui oferecido,

Os fantasmas famintos

Que por aqui já tiveram seu tempo.

Tal qual a chuva que cai sobre uma encosta e flui para o vale,

Da mesma forma o que é aqui oferecido,

Beneficia àqueles que faleceram.

Tais quais os rios cheios de água alimentam os oceanos,

Da mesma forma o que é aqui oferecido,

Beneficia àqueles que faleceram.

“Ele me presenteou, ela agiu em meu nome,  eles forma meus parentes, companheiros, amigos”:

Oferecimentos devem ser feitos para os que faleceram

Quando então se reflete sobre os atos passados.

Para não mais guardar o pesar

Não mais chorar

Não mais lamentar

E para o benefício dos que faleceram

Desta forma os parentes agem.

Mas quando estes oferecimentos são feitos para a Sangha, [ou Comunidade dos Nobres Discípulos]

Funcionam para o benefício de longo prazo

E também para o retorno imediato.

Desta forma, o respeito apropriado para os entes falecidos é mostrado

Grande honra é adquirida para os que já foram,

E os contemplativos [monges] são fortalecidos:

O mérito assim adquirido não é pequeno.

Traduzido por Gabriel Laera da versão traduzida para o inglês por Thanissaro Bhikkhu, disponível em:

http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/kn/khp/khp.1-9.than.html