SBB JORNAL – Agosto/ Setembro – 1981 N° 1

SBB JORNAL
ORGÃO INFORMATIVO DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL
FILIADA A “WORLD FELLOWSHIP OF BUDDHIST” – CEILÃO

CONVERSA COM O LEITOR

Caros amigos, voltar é renascer. E estamos de volta com o nosso informativo. Dava para sentir que os membros da SBB não se conformavam com a ausência de seu jornalzinho. Um comentário aqui, uma alusão acolá e a gente percebia que o pessoal sentia falta da publicação que já fazia parte dos seus hábitos.

Não há porque explicar os motivos da interrupção nem restaurar o lugar comum das desculpas formais, vazias de significado. O que importa mesmo é o aqui agora, e agora estamos aqui. Com novo nome, novo formato, a mesma disposição e a proposta de sempre: servir, informar, esclarecer, orientar, permutar ideias, e vivências, somar, integrar, crescer juntos, florescer! E, acima de tudo, contribuir na medida do possível para a correta difusão do Budhismo puro e uno, Caminho de Autolibertação, resultante inevitável da plena atenção e correta compreensão que consubstanciam o objetivo maior da SBB e a síntese do ensinamento de todos os Buddhas em todos os tempos.

SBB-JORNAL contando, desde já, com a proverbial compreensão e colaboração de todos (sócios, freqüentadores e amigos da Sociedade Budista do Brasil), está se propondo a manter um diálogo sereno e elevado, em linguagem simples, franca, direta, fraterna e accessível, isenta de floreios, pieguismo, mistificação ou dogmatismo, como convém à verdadeira Comunicação, que deve ter como origem e destino o coração de quem emite e de quem recebe ou de quem fala e escuta.

Em cada edição vocês encontrarão, em forma de notícias, reportagens, entrevistas, o relato da vida da SBB e de seus membros, abrangendo todos os aspectos que interessam divulgar ou comentar: doutrinário, social, financeiro, além de transcrições dos mais importantes textos de consagrados mestres de várias escolas do Budhismo em todos os tempos e regiões. Bom proveito e até a próxima edição.

O Editor

EQUILÍBRIO ENTRE O AMOR E A SABEDORIA

O supremo Gurú, Buda

…”Foi através do amor que Ele se tornou instrutor do mundo, e foi através da compreensão que se tornou seu próprio instrutor”…

O Buda é dotado de muitas qualidades, sendo que uma delas demonstra o perfeito equilíbrio que o Mestre mantinha entre dois pilares fundamentais de todo e qualquer edifício da vida espiritual, a saber: Amor e Sabedoria. Essa qualidade é a seguinte: Vidya Charene Sampanno, que significa “dotado de clara visão e virtuosa conduta“.

Através de sua clara visão (Sabedoria) ele demonstra a grandeza da sua compreensão.

Através de sua virtuosa conduta, a grandeza de sua inexcedível compaixão (Amor).

Foi através da compreensão que o Abençoado alcançou o reinado da Lei (Dhamma) e foi através da Compaixão (Amor) que Ele o proclamou.

Foi através da Compreensão que Ele sentiu aversão pela roda dos renascimentos, e foi através da Compaixão (Amor) que Ele a suportou.

Foi através da compreensão que Ele percebeu plenamente o sofrimento alheio e foi através do amor que Ele aplicou o remédio para aliviá-lo.

Foi pela compreensão que Ele se viu face-a-face com o Nibbana e pelo amor que Ele o atingiu.

Foi através da compreensão que Ele aperfeiçoou o estado da Iluminação, e foi através do amor que Ele aperfeiçoou a tarefa (missão) do Iluminado.

Foi através da compreensão que Ele passou além do Samsara (o mar da existência), e foi através do amor que Ele conduziu outros seres à mesma realização.

Foi pela compaixão que Ele encarou a roda dos renascimentos como Bodhisattwa (aspirante a Buda), e foi pela compreensão que Ele não experimentou prazer ou apego à roda da vida.

Foi pelo amor que Ele protegeu a outros, para proteger-se a si próprio, para proteger a outros.

Foi através do amor que Ele se tornou o instrutor do mundo, e foi através da compreensão que se tornou seu próprio instrutor.

Foi pela compaixão que Ele teve humildade (como Bodhisattwa), e através da compreensão que Ele teve dignidade como Buda.

Por outro lado foi pelo amor que Ele ajudou todos os seres como a um pai, enquanto, devido à sua compreensão, sua mente permaneceu desapegada de todos eles.

O amor do Abençoado era vazio de afeição sentimental ou tristeza, e a sua compreensão era livre de pensamentos de “Eu” e “Meu”.

(Extraído do Visudhi Magga, pág. 215).

SABATINA SOBRE O DHAMMA

Esta é uma seção do SBB-JORNAL que pretendemos manter, sempre neste local, com o objetivo definido de esclarecer o leitor – especialmente o leigo – sobre os princípios fundamentais da Doutrina Budista, da maneira mais simples, clara e direta, i.e., em forma de pergintas e respostas. Para começar. o Monge Kaled escolheu, muito apropriadamente, as Três Jóias que sintetizam, ao mesmo tempo o b-a-bá e a essência da Filosofia da Autolibertação. Passemos, sem perda de tempo à nossa primeira sabatina:

Qual o significado das palavras Buda, Dhamma e Sangha?

BUDA – significa Iluminado. Vem da raíz BUD (do sânscrito) ou o mesmo que Compreensão. Por conseguinte, BUDA é aquele supremo estado de Compreensão e Sabedoria atingido pela pessoa do príncipe Siddarta Gautama.

DHAMMA – pode ser traduzido literalmente por Lei ou Realidade, sempre com maiúsculas. Dhamma é a forma Palli. Em Sânscrito escreve-se Dharma. É, em resumo a Doutrina descoberta e ensinada pelo Buda. Esta Doutrina ficou sendo chamada Dhamma porque ela é a Realidade que foi, é e será. O Buda não o inventou, Ele simplesmente descobriu-a e ensinou-a. Surjam ou não os Budas, o Dhamma existe.

SANGHA – é a comunidade dos discípulos do Buda. A tradução literal da palavra Sangha é Comunidade. Abrange desde a comunidade dos discípulos iluminados até toda a Comunidade Budista Universal.

Por que a Senda ensinada pelo Buda foi chamada, por Ele, de Caminho?

Por que ela é eqüidistante dos dois extremos, tanto da vida voltada para os prazeres dos sentidos e a busca desenfreada de bens materiais, quanto — no outro extremo — das práticas ascéticas de mortificação do corpo.

Qual o arcabouço filosófico, i.e., quais são os pilares fundamentais do Budismo?

O arcabouço filosófico do Budismo está consubstânciado nas Quatro Nobres Verdades que são, em realidade, a essência de tudo o que o Buda pregou e ensinou ao longo de sua vida missionária que durou 45 anos, a saber, dos 35 aos 80 anos, quando de seu passamento.

Quais são essas Quatro Nobres Verdades?

As Quatro Nobres Verdades são as seguintes:

1) A Nobre Verdade do Sofrimento
2) A Nobre Verdade da Causa do Sofrimento
3) A Nobre Verdade da Extinção do Sofrimento
4) A Nobre Verdade da Senda Óctupla, ou do Caminho que leva à Extinção do Sofrimento.

Qual é a causa do Sofrimento?

Dez são as causas: Ignorância, Desejo e Apego (as três principais). Cobiça, Ódio, Ilusão, Egoísmo, Inveja, Vaidade e Orgulho.

Qual o sentido da Extinção do Sofrimento?

É a Extinção da Causa, como vimos na resposta à pergunta anterior. Extinguindo-se a Ignorância, o Desejo e o Apego as outras máculas e todo o sofrimento serão extintos.

Qual é a Quarta Nobre Verdade, ou seja, a Verdade da Sunda Óctupla que leva à extinção do sofrimento?
1) Palavra Correta; 2) Ação Correta; 3) Meio de Vida Correto (estas três ítens correspondem à Moralidade); 4) Esforço Correto; 5) Plena Atenção; 6) Concentração Correta (estes três estão diretamente relacionados com a Concentração); 7) Compreensão Correta e 8) Pensamento Correto (dois últimos referem-se à Sabedoria).

O que é a Palavra Correta?

Palavra Correta significa: 1) abster-se de mentir. caluniar e denunciar; 2) abster-se de levar e trazer conversas que causem desarmoniae discórdia; 3) abster-se de palavras grosseiras, duras e ofensivas; 4) abster-se de tagarelice ou conversas frívolas e desnecessárias.

Continuamos na próxima edição

“EU DORMIA e sonhava que a vida era alegria. — DESPERTEI e vi que a vida era serviço. — SERVI e vi que o serviço era alegria.”

ENTREVISTA COM O MONGE ZEN RYOTAN TOKUDA

Temos a honra de abrir esta série de entrevistas reproduzindo a íntegra de uma conversa informal e descontráda com o Venerável Monge Ryotan Tokuda da Escola Soto Zen, que dispensa maiores apresentações. Tokuda — como é conhecido e amado por todos, e como gosta de ser chamado — embora um autêntico Mestre Zen, é uma das pessoas mais simples e despreendidas que conhecemos, e o mais brasileiro (universal) dos japoneses que têm andado por essas bandas. Vivendo no Brasil há quase quinze anos, Tokuda está em Santa Tereza pela segunda vez, com um grande trabalho a realiazr. Nesses anos de Brasil, com sua abertura e ilimitado senso de paciência, compreensão, sabedoria, amor e compaixão, mas, acima de tudo, com sua inigualável capacidade de trabalho, Tokuda-San construiu mosteiros, instalou clinicas de medicina oriental, formou monges, curou pessoas e ensinou outras a curar e — mais do que tudo isto — difundiu o Budismo Puro e Uno, acima das Escolas e das Seitas, sentando-se com milhares pessoas de todas as idades, sentenas de seshins, retiros, simpósios e seminários por este Brasil afora.

Nesta entrevista, Tokuda nos fala de seu trabalho, seus estudos, planos, pesquisas e sonhos, qua abrangem particularmente Santa Tereza — um privilégio nosso — mas que se extendem a todo o Estado do Rio e ao Brasil. Ouçamo-lo com a atenção e o carinho que ele nos merece.

Tokuda-San, o Rio está feliz com sua volta. E o Sr. gostou de voltar à Santa Tereza depois de quase nove anos?

Voltar é sempre gostoso. Especialmente voltar ao Rio, mas como muita gente está dizendo – a missão não é fácil. Não sei se vou conseguir cumprí-la.

Poderia esclarecer os motivos reais de sua volta, além dos aspectos social e sentimental?

Em primeiro lugar, voltei atendendo ao convite Sr. Don, ou ex-Veneravel monge Anurudha, para que sede da Sociedade Budista do Brasil em Santa Tereza continue a ser um centro budista. Em segundo lugar, considero a cidade do Rio de Janeiro o mais importante centro cultural e educacional do Brasil. Muitas pessoas me perguntam sobre a necessidade de levantar aqui um Centro de Meditação. Esses dois motivos juntos são os principais responsáveis pela minha volta. Acho que eu não precisava procurar outro lugar. Resumindo: Voltei porque fui convidado, porque senti que havia necessidade de nosso trabalho aqui.

Quais são seus planos em relação à Santa Tereza e ao Estado do Rio em geral?

Quanto aos meus planos com relação à Santa Tereza posso dizer que tenho e não tenho, porque a Sociedade Budista do Brasil já tem seus planos desde o início. Então, minha missão como quarto Superior deste centro- depois do ex-monge Anurudha,do monge Kaled e do monge Shanti Badhra – é, principalmente, manter, aqui, o Centro de Meditação Budista.

A realização disto implica em muitos detalhes. Além disto, desde o começo da Sociedade, os fundadores-curadores tinham a idéia de construir aqui um edifício de apartamentos, atrás do mosteiro, separado das instalações atuais. Então, estou pensando que meu trabalho aqui é ouvir o máximo de opiniões de todos os interessados e, dentro disso, procurar ver o que eu posso fazer, dentro de minhas limitações. Por exemplo: além do Centro de Meditação, como aqui começou como um centroTheravada, pretendemos organizar um trabalho de tradução dos Tripitakas. Esta é uma meta. Por outro lado, ao tempo em que o Dr. Georges Silva foi presidente da SBB, chegou a ser registrada uma revista com o nome de LOTUS e a circular uma edição. Acho que esse trabalho pode e deve ser continuado. Mas, tudo isto, conforme as necessidades, condições e possibilidades reais de realização. Condições que devem surgir naturalmente. Para mim o importante é escutar os colabodores de desde a época da fundação da SBB, mesmo opiniões opostas.

Quanto mais ouvirmos, melhor. Em termos de Estado do Rio, já temos grupos de praticantes ZEN em Nova Friburgo e Teresópolis, além da cidade do Rio. Isto facilitará a expansão do movimento Budista no Estado. Como já disse, o Rio e um grande centro cultural e o triângulo Santa Tereza (Rio) — São Paulo — Belo Horizonte, parece-me agora ao nosso alcance. Além de Friburgo, temos convites para formar grupos em Campos e outras cidades do Estado. Nossa ida a esses lugares é uma questão de oportunidades em termos de tempo, pois, em virtude de compromissos assumidos antes de nossa volta, temos uma agenda comprometida, pelo menos até o fim deste ano. Posso dizer que é minha intenção permanecer fixo em Santa Tereza pelo máximo de tempo possível, e daqui orientar e irradiar todo o trabalho, tanto na implantação do treinamento ZEN quanto nos campos da medicina oriental e da Transmissão do Budismo.

Em termos de prioridade, como o Sr. alinharia esse planos?

A curto prazo: já realizamos o primeiro mini-seshin estamos treinando (formando) o primeiro grupo de praticantes ZEN para a prática da Medicina Oriental (Shiátsu, Acupuntura e Kam-Pô – ervas medicinais).

Desse grupo florescerá a filial do Instituto Vitória Régia, já funcionando em Belo Horizonte. Em outubr próximo, se todas as condiçes forem favoráveis, pretendo iniciar a transformação de Santa Tereza em mosteiro, com treinamento regular de ZEN para leigos, formaçao de monges, e a realização regular de mini-seshins, seshins e angôs (períodos de treinamento intensivo de meditação e trabalhos, com duração de 90 dias), etc. Como o atual presidente da SBB — Sr. Genaro Quintanilha — está planejando construir novo dormitórios, refeitório, cozinha, etc, gostaria de reunir um grupo de diretores para convidar arquítetos e engenheiros, para elaboração de um projeto global e funcional para o futuro. Para organizar um mosteiro nos moldes tradicionais é claro que demora. Há falta de materiais e instrumentos apropriados, pois como um novo Centro de Meditação, pretendemos organi zar — de maneira correta — a ordenaçao de monges e treinamentos de praticantes leigos.

Embora eu seja monge ZEN, considero-me, antes de tudo, um missionário do Budismo e desejo trabalhar para a expansão do Budismo em geral.. Ultimamente, venho sentindo a necessidade de levantar o nível dos debates em torno do Budismo, reunindo pessoas interessadas daqui e de outros centros. Sinto necessidade de organizarmos uma equipe de pesquisadores, que possa traduzir textos originais dos grandes mestres, e sutras. Também acho importante incrementar o intercâmbio entre os estudiosos de outros ramos da Religião, da Filosofia e das Ciências. Tudo vai depender das condições. O presidente da Sociedade Budista e o Sr. Don, por outro lado, estão interessados em organizar uma sede no centro da cidade. Tudo depende de oportunidade e de condições, de deixar o centro amadurecer. Também a longo prazo gostaria de poder convidar dois monges estrangeiros — um Theravada e um Tibetano, para for mar um centro de Budismo, tanto para treinamento como para pesquisas e estudos em geral, um centro que possa receber praticantes interessados de todo o Brasil e do Exterior. Veremos veremos.

Quem está lhe apoiando nesse trabalho e que tipo de apoio tem recebido?

Em primeiro lugar, tenho recebido todo o apoio do Sr. Don, que me convidou, do Presidente Genaro e da Diretoria, que ratificaram o convite, bem como do monge Kaled. Todos têm sido muito gentis, leais e sinceros. Devo ressaltar que ganhei licença do Superior da Escola Soto Zen de São Paulo — Mestre Shingu — para transferir para Santa Tereza o centro de minhas ati vidades. Outra forma de apoio é a presença de muitos freqüentadores às reuniões de Santa Tereza, muitos já se iniciando na pática de Meditação, além de praticantes de outras cidades do Estado do Rio e dos vários Estados do Brasil, que trazem manifestações de apoio e solidariedade. Além disto, diretores e membros da Sociedade Teosófica do Brasil têm-se trazido o seu apoio, em forma de convites para palestras e conferências.

E quanto aos obstáculos, existem? Quais os mais freqüentes? Jogo aberto, por favor?

Jogo aberto? Pois bem: sim, sempre há barreiras e obstáculos. Por exemplo: sinto que, como a SBB sofreu muitas dificuldades e problemas, há algumas pessoas que se retrairam e estão receosas de voltar a freqüentar Santa Tereza. Espero que com o tempo todos venham se juntar a nós. Mesmo porque — como costuma dizer o Sr. Don “nós somos apenas instrumentos da vontade dos Seres Divinos”, enquanto estivermos treinando no caminho correto. Outro obstáculo é a parte financeira: acho que o número de sócios é reduzido; desses, poucos são os que cumprem rigorosamente em dia seus compromissos e que colaboram realmente. Essa parte precisa melhorar bastante, para que a Sociedade possa ter meios de realizar nossos planos (construções, ampliações, pesquisas, publicações, etc). Depois, acho que precisa haver mais harmonia entre todos os freqüentadores da SBB. Só existe verdadeira Harmonia e colaboração mútua quando — ao invés de um mandar e muitos obedecerem — existe a divisão igual das responsabilidades, deveres, direitos e funções do trabalho. Mas sinto que tudo isto vai se resolvendo satisfatoriamente. Tudo vai melhorar, porque a Sociedade já sofreu muito e todos devem ter aprendido. Quanto ao mais,obstáculos sempre existiram, fazem parte de qualquer trabalho. E é para enfrenta-los e superá-los juntos que estamos aqui.

Em sua opinião o mini-seshin de junho cumpriu suas finalidades?

Cumpriu, sim. Acho que cumpriu. Foi muito bom, Muita gente se inscreveu (quase 40 pessoas) e, no dia, metade não veio. Mas os 20 que ficaram eram de boa qualidade. Meu trabalho principal é Seshin. Com os Sheshins sempre aparecem pessoas para praticar.

Quando haverá novos seshins no Rio?

Estou pensando. No temos ainda lugar apropriado para este fim, mas estou querendo realizar outro sheshin no inicio de outubro, como parte integrante do treinamento, com Santa Tereza já em ritmo de verdadeiro mosteiro. Aguardemos.

Sabemos de seu trabalho incansável na dífusão do Budismo, nesse período em que esteve fora de Santa Tereza. Poderia resumí-lo para nós?

Logo que saimos de Santa Tereza, organizamos a Sociedade Mahamuni, em Copacabana, que depois transferiu-se para Nova Friburgo. Na mesma época continuei o trabalho com o grupo de Meditação Zen em Porto Alegre. Daí, fui convidado para o Mosteiro Morro da Varzea, em Ibiraçu, Espírito Santo, deixei Nova Friburgo e fixei-me em Ibiraçu, onde comecei a formar os monges Zen brasileiros. Desses, três encontram-se no Japão, treinando em mosteiros japoneses. Nessa altura, comecei a participar de simpósios, congressos e seminários e, dai surgiram os primeiros grupos de praticantes Zen em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde já fomos agraciados com a doação de terreno para a construção do templo Zen “Olho D’água”. Ainda em Belo Horizonte, fundamos o Instituto Vitória Régia, centro de pesquisa e pratica de medicina oriental .

No Instituto, funcionam a parte de tratamento e um centro de pratica de meditação, sob a direção de monges brasileiros. Afora isto, têm-nos sido oferecidos terrenos para a construção de outros mosteiros (em Nova Friburgo e interior de São Paulo), mas não pudemos aceitar, por falta de condições (tempo), para assumir novos compromissos. Finalmente, o plano da Construção de um Centro de Cultura Budista em Ouro Preto, Minas Gerais, para o qual estamos aguardando a confirmação de doação de um terreno pela Prefeitura local. Para Ouro Preto, a ideia e a organização da BBB (Biblioteca Budista do Brasil) reunindo, principalmente, toda a coleção de livros e textos budistas editados em línguas ocidentais, desde fins do século passado. Além da Biblioteca central, o Centro disporia de filmes, slides, cassetes, sistema de som, auditório e sala de projeções, centro de artesanato, pesquisa, traduções e edições de obras budistas.

De nossa parte, estamos satisfeitos e agradecidos, utilize o espaço que quiser para dizer o que lhe parecer necessário dizer, aqui e agora?

Eu e que agradeço. Bem, estou sentindo que está chegando a hora de voltar ao Japão para atualizar e aperfeiçoar meu treinamento pessoal com um mestre Zen japonês. Isto não significa que vou embora definitivamente, porque já considero o Brasil minha terra natal ou minha segunda pátria. Minha idéia é aproximar cada vez mais Brasil e Japão. Acho que quando mais juntos estivermos, melhor. Para isto é preciso muito intercambio cultural, filosófico e religioso entre Brasil e Japão. E, também, como o Budismo é universal, é preciso ampliar o desenvolvimento do intercâmbio com o mundo inteiro. Atualmente, pelo menos quatro praticantes Zen brasileiros estão em treinamento no Zen Center de São Francisco, Califórnia, EUA, e alguns outros visitantes do Japão, China, Índia, Tibete, etc. Portanto, acho que está chegando a hora de viajar. Mas fiquem tranqüilos. Não pretendo voltar para o Japão, mas ir ao Japão, e voltar ao Brasil. Há muito o que fazer aqui.

O EDITOR: Reiteramos nosso agradecimento, votos de que o Sr. realize todos os seus planos e conte com total apoio e solidariedade do SBB-Jornal.

POESIA – MORTE DA PALAVRA – Palmeira Guimarães

Quietíssimo
Sobre a almofada ondulante
Meu ventre ia e vinha.
Ritmicamente
Eu só era e vivia.
Por monhas narinas
Sístole e diástole
Mais débeis, mais tênues
Iam se extinguindo.
O corpo já não era,
Os olhos abertos
Olhavam, não viam.

Samadhi? Satori?
Nirvaba? Extinção?

Não, não, não, não, não,
Cem mil vezes não!
Palavras não captam
O impreciso instante
Em que a esteira da morte
Revela-nos a face
Da única Vida.

COMUNICANDO

BIBLIOTECA — A Biblioteca da Sociedade Budista do Brasil está à disposição dos associados. E o nosso quadro social está aberto. Venha conhecer nossas instalações, meditar conosco, tomar um chá e, se for de seu interesse, tornar-se nosso associado. A programação de nossas atividades, com horários de meditação franqueada ao Público, está abaixo:

ATIVIDADES DO MOSTEIRO-DA SBB PARA SETEMBRO de 1981

Meditação Diária Franqueada ao Público:

05:20h da manhã ZAZEN – sessões de ZAZEN (meditar sentado) com duração de 40 minutos, seguida de Ofício.

18:10h ZAZEN – Além das sessões diárias às 05:20h da manhã, há prática de ZAZEN de segunda a sexta feira, às 18:10h também franqueadas a praticantes leigos.

19:00h PUJA (meditação com recitação de sutras). Os interessados devem comparecer com uma antecedência de 10 minutos. Depois de iniciadas, as sessões de meditação não devem ser interrompidas

Meditação dos Sábados e Domingos:

Nos sábados e domingos (dias 5,6,12,13,19,20,26 e 27) de setembro, além do ZAZEN às 05:20h e do PUJA às 19:00h, há o PUJA das 16:00h (meditação com recitação), seguida de palestras (17:00h) sobre o Budismo, a cargo do monge Kaled, e leitura de textos Budistas.

Nos intervalos entre os PUJA de 16 e 19 horas é servido chá aos sócios e freqüentadores presentes. As palestras dos sábados e domingos são, geralmente, acompanhadas de perguntas e respostas com interessante troca de experiencias entre os participantes. Compareça e prestigie!

Cerimônias

Afora as cerimônias diárias das 06:00h da manhã, que fazem parte do treinamento dos monges rehidentes no mosteiro da SBB e dos ofícios realizados nas datas festivas do calendário Budista, ocorrem freqüentemente no nosso Centro de Meditação cerimônias de bênçao matrimonial e batizados, a cargo de missionários budistas. As pessoas interessadas devem com parecer à Estrada Dom Joaquim Mamede, 45 – Lagoinha, Santa Tereza, para marcar data e combinar detalhes. Também realizamos cerimônias funebres no dia dos mortos e datas como 7° dia, trigési mo dia, etc, ofícios com citação de sutras e oferenda por alma de parentes falecidos.

Retiros

Independentemente dos SESHINS (períodos de ZAZEN intensivo) e dos retiros de fins-de-semana, que acorrem mensalmente nas de pendências de nosso mosteiro, as nossas portas estão sempre abertas para os associados da SBB que desejem fazer retiros individuais, com práticas de meditação, trabalhos, recolhimento e práticas espirituais.

Dispomos de dormitórios masculino e feminino, cozinha própria e um ambiente tranqüilo e agradável em plena montanha, em contato direto com a Natureza. Inforrnações aqui na SBB, em Santa Tereza.

GRANDE SESHIN DE DEZEMBRO

Estamos informados de que será mais uma vez em Teresópolis o grande Seshin de fim de ano, a realizar-se em, dezembro.

Trata-se do grande encontro nacional dos praticantes ZEN de todo o Brasil cuja realização ocorre nas proximidades (começo ou término) do dia 8, dia da Iluminação de Buddha.

Teremos informações minuciosas e definitivas na próxima edição, mas os interessados já podem se informando nos centro do Rio (Santa Tereza), Belo Horizonte, São Paulo, (Liberdade), Nova Friburgo e naturalmente Teresópolis.

CURSO DE MEDICINA ORIENTAL

Já em sua oitava aula, segue com pleno êxito o Curso de Medicina Oriental para praticantes Zen, sob a supervisão do monge Tokuda. As aulas sobre Acapuntura, Shiátsu e Kam Pô (tratamento à base de ervas medicinais japonesas) constam de informações teóricas, além de muita prática. Iniciando em fins de junho, com apenas cinco treinados, o Curso já conta com a participação de mais de dez pessoas. Esse grupo vai se constituir no núcleo carioca da Clínica Vitória Régia, implantada por Tokuda em Belo Horizonte, e em pleno funcionamento, sob a direção de monges Zen brasileiros.

Ei, homem ! — Acorda é tempo ainda, — Esse teu tempo finda, — Faz uma oração:

NOTÍCIAS

RETIRO DE AGOSTO

Sob a supervisao do monge Kaled, realizou-se, entre 14 e 16 de agosto, mais um retiro nas dependências da SBB, com a participação de 20 pessoas. O Encontro constou de Meditação sentada e andando, recolhimento, trabalhos, Yoga, exercícios respiratórios e outras práticas espirituais. O Retiro, a exemplo dos anteriores, foi dos mais proveitosos, pois além de reforçar os laços de amizade e fraternidade entre os partici pantes, constituiu-se num maravilhoso laboratório de prática e, segundo o depoimento da maioria dos participantes — alguns já tomaram parte em retiros anteriores — serviu para reforçar suas convicções religiosas e torná-los mais conscientes de seus deveres e responsabilidades como cidadãos e criaturas humanas. As palestras sobre o Dhamma e fundamentos da Doutrina Budista, pronunciadas pelo monge Kaled, foram recebidas com entusiasmo geral, bem como os Pujas (recitações de sutras) do sábado e do domingo, a cargo do Sr. Don. Outros retiros virão.

ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA

Transcorreu num clima de muita cordialidade a Assembléia Geral Ordinária, convocada pela Diretoria da Sociedade Budista do Brasil, para 4 de julho último. A reunião teve lugar, após o puja das 16 horas, no recinto da sede, com um grande número de sécios convidados. O presidente Gernaro Qaintanilha solicitou ao ex-presidente Comandante Zomar que assumisse a presidência Assembléia. O Comandante, aceitando o convite, pediu ao monge Kaled para secretariar os trabalhos. Lida a convocação verificado que tudo estava e ordem, foi dada a palavra ao contador Wilton Burgos, que procedeu a leitura do balanço da Sociedade no último exercício. A seguir, conforne a pauta da Assembléia, foram preenchidos diversos cargos vagos na Diretoria e, finalmente, foram discutidos e aprovados vários assuntos de ordem geral. Em seguida, o Comandante Zomar congratulou-se com os membros da SBB pelo êxito da Assembléia, agradeceu a colaboração de todos, devolvendo presidencia ao Sr. Genaro Quintanilha, que encerrou os trabalhos, pronunciando, antes breves palavras de agradecimento a quantos cooperaram para o êxito da reunião.

MINI-SESHIN DE JUNHO

Assinalando o reinício das atividades do Superior Tokuda em Santa Tereza, realizou-se na sede da SBB, de 16 a 18 de junho, um mini-seshin com a participação de vinte pessoas, inclusive os monges — F1ávio e Aníbal, vindos especialmente de Belo Horizonte, para colaborarem na organização e ralização do encontro. De Nova Friburgo vieram três praticantes Zen. Os demais residem no Rio de Janeiro. O encontro foi dos mais proveitosos. A direção esteve a cargo do monge Tokuda, Don foi o mestre fundador r monge Kaled encarregou-se das palestras para os participantes, além de dar importante colaboração no preparo da alimentação. Nos três dias de seshin houve 13 sessões de meditação Zen, de 40 minutos cada uma, intercaladas de aulas e trabalhos no mosteiro. Ao que tudo indica o próximo seshin acontecerá em outubro próximo.

FESTA DO VESAK

Constituiu-se mais um contecimento na vida do Centro de Meditação da Sociedade Budista do Brasil a festa do VESAKdeste ano, na lua cheia de maio. O Vesak, como se sabe, é a comemração do triplice aniversário de Buda (nascimento, iliminação e passamento).
Desde as primeiras horas do dia 17 maio os jardins e dependências da SBB regorgitavam sócios, visitantes e amigos que participaram de todas as cerimônias e comemorações. O Vesak foi aberto às 10 horas com a meditação do Amor Universal.Entre 9 e 20 horas, cerca de 200 pessoas compareceram à sede, trazendo flores e outras oferendas. Ao meio dia, numa gande mesa ao ar livre, foi servido o almoço preparado pelo moge Kaled. Às 16 horas, houve o puja, com recital de sutras ao cargo do Don e uma ceremônia das mais bonitas. A seguir usaram da palavra diversos oradores, falando da importância do Vesak, entre eles os ex-presidentes Dr. Georges Silva e o Comandante Zomar, e o atual presidente GEnaro Quintanilha. A seguir o monge Tokuda dirigiu uma cerimônia ZEN. O monge KAled proferiu interesssante palestra sobre o Dhamma e, em seguida foi oferecida água fluidificada a todos os presentes. Após a Puja e a cerimônia das 16 horas foi servida uma canjica.Às 19 horas realizou-se o segundo Puj, seguido de Meditação. Vieram comitivas de praticantes de Belo Horizonte, Friburgo e Teresópolis. Uma bela festa sem dúvida…

OBRAS NA SBB

Graças à boa disposição do presidente Genaro Quintanilha e a efetiva colaboração de diversos associados (tanto em forma de trabalho quanto de doação de materiais), realizaram-se em julho último algumas obras importantes relacionadas com a reforma das instalações da sede da SBB. Entre outras coisas, foi levantada (completada) a parede que liga o vestiário masculino ao salão da sede.Também foi substituído todo o telhado do vestiário e da sede, que receberam pintura nova. A cozinha também foi pintada e recebeu reforço de madeiramento. Para evitar a deterioração do telhado foi podada uma mangueira do jardim. Construiu-se um belo banco maciço recoberto de mármore, que embelezou bastante a área externa da sede.

AUMENTO NAS MENSALIDADES

Entre os assuntos de interesse geral discutidos na Assembléia Geral de 4 de julho, foi aprovada a elevação das mensalidades dos sócios colaboradores da SBB de Cr$ 100,00 para Cr$ 200,00, a partir de julho deste ano. O aumento foi aprovado por unanimidad, tendo em vista o elevado índice de inflação registrado no país, além de serem as mensalidades a principal fonte de renda da Sociedade.

SERVIR…
Há a alegria de ser sadio e a do ser justo; mas há
sobretudo a maravilhosa, a imensa alegria de servir.
Que triste seria o mundo se nele tudo já estivesse feito,
se não existisse uma roseira para plantar
um empreendimento para se iniciar.

NOTICIÁRIO

O monge Kaled esteve em Belo Horizonte em julho último, durante de cerca de dez dias. Visitou familiares, realizou retiros, pronunciou palestra na Maçonaria de Belo Horizonte onde foi homenageado e difundiu muito o Budismo e a Cosmocracia.

O monge Tokuda pronunciou palestras na Sociedade Teosófica do Brasil, no Centro e em Copacabana. Assunto: Zen Budismo.

A praticante Zen Odete Lara encontra-se em treinamento no ZEN-Center de São Francisco da Califórnia, EUA. Tem dado notícias. Dará uma esticada até à Índia e voltará para reassumir seu posto em Nova Friburgo, onde o trabalho continua em franco progresso.

O monge Mário Ricardo Gonçalves e sua esposa – a sacerdotisa Ivonete Gonçalves – encontram-se em Kyoto – Japão – em viagem de estudos, de onde têm mandado notícias freqüentemente.

O monge Aníbal, com a colaboração dos praticantes Zen de Belo Horizonte, está preparando o primeiro número da Revista ZEN no Brasil, para circular brevemente, As informações são de que a revista terá qualidade gráfica e material editorial do mais alto nível. Aguardemos.

Tokuda San e Palmeira Guimarães estiveram em São Paulo, entre 12 e 18 de agosto, participando do Sheshin para Monges, promovido anualmente pela Escola Soto Zen, na Liberdade.

O monge Kaled estudando árabe com muito afinco, preparando-se para sua viagem de dois anos à Arábia Saudita, para segundo ele, “recarregar as baterias com vistas à missão do terceiro milênio, no Brasil!”.

O monge Yukyo Ponce – da Escola Xingon de Budismo Esotérico – responsável pela comunidade SO-RAMA, de Petrópolis, onde vem realizando um belo trabalho, esteve em Santa Tereza, em visita de cortezia ao superior Tokuda. Aproveitou para tratar da tradução do Japonês para o Português de alguns textos de sua Escola.

Afonso Domingues,Gugu e Graça continuam dando uma força imensa ao trabalho de difusão do ZEN-Budismo em Teresópolis.

O monge Tokuda proferiu debates ZEN na Faculdade de Cândido Mendes para a turma de Filosofia, em julho último.

CIRCULAÇÃO INTERNA ENTRE ASSOCIADOS DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL
• Diretor Responsável — Genaro Quintanilha
• Editor — Palmeira Guimarães
• Secretário — Everaldo Marques
• Colaboradores — Ryotan Tokuda, Kaled Assrany, Dr. Silva, Zomar Pontes Ramos, Georgete Sotero
• Redação: — Estrada Dom Joaquim Mamede, 45 – CEP 20.241 – Lagoinha – Santa Tereza – Rio de Janeiro.

* Matérias assinadas são de responsabilidade dos autores. Não devolvemos originais não aproveitados.

DIRETORIA DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL

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• 1° Tesoureiro — Palmeira Guimarães
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• 1° Bibliotecario — Maria Goretti Pereira
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CORRESPONDÊNCIAS

Esperamos que os nossos associados e os leitoes do SBB-JORNAL em geral escrevam hastante para esta secção, não apenas manifestando sua opinião sobre o nosso informativo, mas, principalmente, remetendo sugestões, críticas colaborações, É de nosso interesse, também, o maior intercâmbio possível com publicações congêneres, inclusive colocamos nossas páginas a disposição para a divulgação de assuntos pertinentes com a linha editorial do SBB-JORNAL. Os leitores podem (e devem), igualmente, dirigir perguntas sobre a doutrina e filosofia budistas que teremos o máximo prazer em responder. Contamos com o seu “alô” para o próximo número. (O endereço está nesta página, no expediente do jornal. Não custa repetir: Estrada Dom Joaquim Mamede, 45 – Lagoinha – Santa Tereza – Rio de Janeiro. Escreva, colabore participe, leia e divulgue o SBB-JORNAL.)