Revista Lotus – Meditação

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL
Estrada Dom Joaquim Mamede 45, Lagoinha, Sta. Tereza
Rio de Janeiro

ANO I 1975 Nº 1

Editor Responsável: GEORGES DA SILVA
Redatora Chefe: RITA HOMENKO
Colaboradores: Marco Antonio Arantes
Carlos Kassab
Clarisse de Oliveira
Rogel de Souza Samuel

Editorial
Resumo histórico da SBB
As origens e o surgimento do Budismo
Os fundamentos do Budismo
Introdução ao Zen
A difusão do Dharma no Tibet
Meditação
Costumes e regras monásticas na Tailândia e Sri Lanka

Informativo
Capas

Meditação – Dr. Georges da Silva

(Excerto do livro “Budismo, Caminho da Correta Compreensão”) DESENVOLVIMENTO MENTAL – BHAVANA A finalidade do budismo é reunir novamente o indivíduo com a realidade que foi perdida de vista, devido a nossa ignorância em buscar a felicidade que ansiamos, onde ela não é encontrada: nas sombras e ilusões de nossa própria mente. Falando da crescente influência do budismo no ocidente, o Dr. Graham Howe disse: “No decorrer dos trabalhos de númerosos psicólogos descobriu-se que estamos muito próximos do budismo sem o saber; basta estarmos um pouco esclarecidos sobre a filosofia budista para compreender que há 2500 anos atrás sabiam mais sobre psicologia moderna do que se possa imaginar… Desta forma, estamos redescobrindo a Antiga Sabedoria do Oriente”. Durante centenas de gerações estamos condicionados a “pensar” e atribuir ao intelecto o centro das conquistas humanas, mas é evidente que a decorrência de todo esse passado acumulado, catalogado e esmiuçado através da engrenagem puramente intelectual mostra agora, principalmente nos tempos atuais, a completa falência na solução dos problemas humanos fundamentais, como o amor, a paz, o sexo, o ódio e as guerras. O conhecimento adquirido pelo acúmulo da memória, pela cultura, pela especialidade e aprimoramento técnico, nada mais é do que a captação superficial do assunto, do fato, da situação, do problema. Vivemos dominados pelo apego e aversão até mesmo aos mais insignificantes objetos, assim como damos um valor absoluto as mais relativas situações. Vivemos egoisticamente e, por conseqüência, dominados pela má vontade e ressentimentos, quando vemos contrariados os nossos menores interesses. Sentimos ódio, ciúme, ansiedade, sem que tenhamos consciência de que a nossa ignorância faz deste mundo um muro de lamentações. São dessas impurezas da mente que surgem todos os problemas humanos, como também a continuidade do desespero, da aflição, da decadência física, moral e da morte. No budismo, a compreensão verdadeiramente profunda é conhecida pelo nome de “penetração”, o que consiste em ver a coisa na sua verdadeira natureza, sem nome nem rótulos, sem conceitos. Essa penetração somente é possível quando a mente está livre de todas as impurezas, de todos os condicionamentos e a visão intuitiva fica desenvolvida ao máximo por meio da meditação. Sem meditação não existe a Correta Compreensão. O objetivo principal da meditação consiste na contemplação e observação pura (vigilância), compreender a vida e as coisas como elas realmente são, penetrar em sua verdadeira natureza. Através da prática da meditação podemos desenvolver nossas mentes, objetivando a purificação e a compreensão da verdade e alcançar a perfeição em vida. A meditação é uma ação vigilante que permite ao homem libertar-se da influência da relatividade dos fatos e das coisas, e penetrar na verdadeira natureza da existência, isto é, compreender que ela é impermanente, sem substância, portanto capaz de causar sofrimento aquele que, na sua ignorância se apega às coisas, aos seres e à própria vida. Uma vez libertado desta ilusão básica, e portanto da irrealidade do conceito do “eu” que condiciona a noção de permanencia e egoísmo, o homem se liberta da lei do carma e do ciclo sem fim dos renascimentos. Gotama Buda falou: “Existem duas espécies de doenças: a fisica e a mental. No entanto, há indivíduos que têm a felicidade de estarem isentos de doença física durante um, dois ou mais anos, ou mesmo durante o decorrer de toda vida. Mas, bikkhus, raros são aqueles que neste mundo estão isentos um só instante da doença mental, salvo aqueles que estão livres de todas as impurezas da mente, isto é, os Arahants.” A palavra meditação substitui mal o termo original bhãva na que significa cultivo do desenvolvimento mental. Ela tem por fim libertar a mente do jorrar continuo dos pensamentos, de toda espécie de impurezas e perturbações tais como: indolência, preocupações, agitações, dúvidas, má vontade, ressentimento, ódio, desejo sensual etc., e de cultivar as qualidades tais como: a concentração, a atenção, a vontade, a energia, a faculdade de analisar, a confiança, a alegria, a calma, etc.; e finalmente levar o indivíduo a mais alta sabedoria, de ver as coisas tais como elas são, podendo alcançar a percepçao da Realidade Última, o Nirvana, que só é atingido através da compreensão supra-racional ou visão intuitiva, da qual qualquer descrição transcende as limitações do intelecto discursivo. Há duas formas principais de meditação. Uma é a do desenvolvimento da concentração mental –Samãdhi, da fixação unificadora da mente que, mediante diversos métodos descritos nos textos, conduz o individuo da relatividade da vida aos estados mentais mais elevados de supraconsciência — dhyana. Quando a mente está ocupada com o mundo exterior, experimentando as coisas sujeitas ao tempo e ao espaço, ela aparece como mente individual ou “eu”, o que é ilusório. Quando a mente pelo processo de meditação entra em supraconsciência — dhyana, neste estado, ela pode atingir a condição da Mente Cósmica, que o estado verdadeiro da mente até onde podemos conceber, isto é, a neutralização da mente pensante (condicionada), mas não da mente superior (não condicionada). Estes estados mentais elevados, segundo Sidarta Gotama, foram denominados de “Esfera onde não existe nem Percepção nem não-Percepção”. Outros os denominam de “Vazio”, “Uno com Uno”, “Uno com o Todo”. Mesmo estes altos estados da mente, diz o Buda, também são criações e produções mentais. Esta forma de meditaçao já existia antes de Gotama Buda, e não esta excluída do campo da meditação budista. Antes de sua Iluminação, o próprio Buda havia praticado este tipo de meditação sob a direção de vários mestres iogues, alcançando os mais altos estados da mente, porém com isto não havia alcançado a libertação completa, nem a visão sobre a Realidade Última. Considerava estes estados como uma forma de “permanecer feliz”. Insatisfeito, e pelo seu próprio esforço e tenacidade, descobriu outra forma de meditação, conhecida como Vipassana, em pali ouVipasyana ou Vadarsana, em sânscrito ou seja, penetração ou visão profunda da natureza das coisas como elas são, que conduz a completa libertação da mente, a realização direta da Verdade Última, ou Nirvana. É um método analítico baseado na atenção, na tomada de consciência, na vigilância e na observação. O essencial em qualquer método de meditação é a capacidade de concentração baseada na atenção, que requer a focalização da vontade, que está atrás de toda ação, tanto física como mental. É óbvio que o pensamento concentrado é o que nós temos de mais importante. É por meio dele que organizamos nossa vida, dirigimos a nossa vontade, empreendemos boas ou más ações, acertamos ou erramos no que estamos fazendo, etc. Existem diferentes metodos de cultivo da atenção e do desenvolvimento da faculdade de concentração, mas o método mais simples e mais difundido é o da atenção na respiração. Nos antigos textos mitológicos o ar era descrito como um elemento cósmico hipotético, dotado de força criadora. No Yoga o controle da respiração — pranayãma — constitui um exercício próprio destinado a unificar a consciência afim de alcançar níveis de percepções suprasensoriais. A respiração consciente é apenas um aspecto de outras formas de percepção do corpo físico. A percepção da natureza do corpo físico acompanha um estado de tranquilidade resultante da postura do observador despreendido. Pensai por um momento nas conseqüências advindas se cada um de nossos atos fosse executado com uma atenção consciente de cada movimento, sentimento e pensamento. EXERCÍCIO DE
CONCENTRAÇÃO NA RESPIRAÇÃO
Devemos praticar este exercício de concentraçao só quando deliberado pela vontade e quando tempo for próprio. Para praticar este exercício, é absolutamente necessário que fiquemos sentados naturalmente numa posiçao confortável, porém erectos e sem encostarmos em nada, com as mãos superpostas, descançan-do descontraídas sobre as coxas. A posição sentada no chão, de pernas cruzadas, com as plantas dos pés voltadas para cima, nas coxas opostas, a maneira dos iogues, nao é essencial, porém preferível, pois prepara o meditante para permanecer sentado horas prolongadas sem esforço. O importante é a atitude que devemos ter, de total renúncia, de completa atenção, ao mesmo tempo que deixamos a mente absolutamente livre. Ao fecharmos os olhos, observamos primeiro nosso próprio corpo para certificarmos da segurança e conforto da posição que escolhemos. Mentalmente percorremos todo ele e fazemos os últimos ajustes sobre o assento em que estamos. Respiramos normalmente e naturalmente. Nossa mente deve se concentrar unicamente na inspiração e na. expiração, isto é, como o ar entra e sai pelas narinas (como sensação física, produzida pelo toque do ar nas narinas, e não no conceito de respiração). Nossa respiração pode ser ora profunda, ora curta, isto não tem nenhuma importancia. Continuamos respirando normalmente. O importante é que, quando as respirações são profundas, devemos ter consciência que respiramos profundamente; e quando nossa respiração está curta, tenhamos consciência do ato. Nossa mente deve estar totalmente concentrada na respiração, de forma a tomar plena consciência desses movimentos e das mudanças do rítmo. Ao iniciar esta concentração na respiração, temos logo a surpresa em constatar que a nossa mente e invadida por ideias, pensamentos, lembranças, ruídos, coceiras, etc., aparentemente incontroláveis. Desta forma podemos observar como nossa mente é intranquila, é uma presa de estímulos e reações emocionais, permanentemente condicionadas, desencadeadas pelo contato momentaneo da nossa mente com o mundo exterior através dos sentidos. É uma busca cega, incessante, insaciável por satisfação. Isto não é realidade, mas um sonho desperto, uma sequência de conceitos e fantasias do nosso mundo repleto de inúmeras formas identificáveis, reconhecíveis com nomes relacionados com imagens conceituais da realidade em nossa volta. O conhecimento da Realidade nos escapa e nós inexplicavelmente não fazemos o menor esforço para disciplinar nossos próprios pensamentos. Por preguiça, por indiferença, ou por centenas de pretextos, costumamos assistir ao desenrolar dos acontecimentos mais desagradáveis, atribuindo aos outros os nossos tropeços e a incapacidade de compreender as razões do erro. Por comodidade deixamos a mente desatenta e sem rumo. Vivemos de sonhos, fantasias, especulações inúteis. Diariamente somos abalados por medos, apegos e aversões, angústias, insatisfações e procuras. Mesmo quando começamos a perceber a maneira como nossos pensamentos nos iludem e atormentam, sem concentração o jorro dos pensamentos recomeça novamente, agitando e entristecendo-nos a todo instante, o que nos lembra sermos iguais a fantoches movidos por cordas num teatro de marionetes. Gotama Buda comparou a mente a impressão que dá um macaco inquieto, pulando de galho em galho, em busca do fruto que o satisfaça, através da infindável selva de eventos condicionados. A futilidade e a irrealidade inerente a tal modo de existência é evidente logo que o indivíduo principia a ver claramente. Assim a meditação e o meio ou a ação pela qual podemos cortar a cadeia de conceitos e palavras associadas, quebrando, ou melhor, compreendendo a continuidade dos pensamentos invasores aparentemente incontroláveis, de modo a conseguirmos o domínio sobre o “eu” (nossa personalidade aparente). Por esta razão, se insistimos praticando este exercicio no mínimo duas vezes por dia, de preferência de manhã e a noite, durante 10 a 20 minutos cada vez, aos poucos nossa mente se concentrara únicamente na respiração e assim se realizará este tipo de concentração. No fim de algum tempo, podemos experimentar esta fração de segundo em que nossa mente estará totalmente concentrada na respiração, momento em que os ruídos não perturbam mais, e a mente não fica invadida por pensamentos, e o mundo exterior não existe mais para nós. Este rápido momento será uma experiência tão grande, tão cheia de alegria, de felicidade e calma, que teremos o desejo de prolongá-lo. Mas isto não estará ainda ao nosso alcance. Porém continuando na prática desse exercício regularmente, a experiência se reproduzirá repetidas vezes e progressivamente, por períodos mais longos. Chega o momento em que desaparece a atenção na respiração; esta nova experiência, prolongada pela prática, desenvolve o poder de concentração, que pode levar com o tempo à realização da supraconsciência — dhyana. A prática de concentração na respiração nos trará benefícios imediatos, e nos tornarão mais calmos, tranquilos, o sono mais profundo, o trabalho cotidiano mais eficaz, e nossa saúde física se beneficiará. Mesmo nos momentos em que nos sentimos nervosos ou impacientes, se praticarmos este exercício apenas 2 minutos, comprovaremos que isto nos acalmará e nos apaziguará imediatamente, e teremos a impressão de despertar de um sono reparador. O exercício de concentração na respiração também pode ser praticado com a mente concentrada nos movimentos de subida e descida do abdome na inspiração e na expiração. MEDITAÇÃO DE PLENA ATENÇÃO – SATIPATTHANA DESENVOLVIMENTO DA VISÃO INTERIOR – VIPASSANA Assim como o interesse desenvolve a atenção, tambem é verdade que a atenção desenvolve o interesse. Quem se dá ao trabalho de prestar um pouco de atenção voluntária a qualquer objeto, em breve achará nele alguns pontos de interesse. Descobrir-se-ão rapidamente coisas que antes não eram vistas nem suspeitadas. Hamilton disse: “Um ato de atenção, isto é, um ato de concentração, parece ser tão necessário para termos consciência de qualquer coisa, como uma certa contração da pupila é condição indispensável à visão. A atenção é, pois, para a consciência, o que a contração da pupila é para a visão; ou a atenção é para o olho da mente, o que o microscópio ou telescópio é para o olho do corpo.” Butler acrescenta: “Geralmente se diz que a condiçao de gênio não pode ser infundida por meio da educação, mas este poder de atenção concentrada, que é próprio a todo grande inventor como uma parte do seu dom, pode ser com toda a certeza, aumentado quase indefinidamente por meio de resoluta prática.” Beattie também acrescenta: “A força com que alguma coisa impressiona a mente, está geralmente em proporção ao grau de atenção que se lhe presta. Além disso, a grande arte da memória é a atenção, e as pessoas que não prestam atenção tem sempre má memoria”. PRÁTICA PARA O DESENVOLVIMENTO DA CORRETA CONCENTRAÇÃO OU DA OBSERVAÇÃO PURA Esta forma de meditação consiste em nos manter atentos a tudo que fazemos, atos ou palavras, na rotina cotidiana de nosso trabalho, na nossa vida privada, pública ou profissional. Caminhando, estando de pé, sentado ou deitado, olhando em volta, quando vestindo, falando ou em silêncio, comendo, bebendo ou exercendo as funções naturais, a qualquer coisa que fizermos devemos ter plena consciência da ação a cada momento, em outras palavras, devemos viver no momento presente e na ação presente. Isto não significa que devemos renunciar a pensar no passado ou no futuro, pelo contrário, pensaremos neles relacionando-os com o momento presente e com a ação presente. Observamos frequentemente uma pessoa comendo e lendo ao mesmo tempo. Parece estar tão ocupada, que nem sequer tem tempo para comer. Temos a impressão que faz as duas c
oisas ao mesmo tempo, mas na realidade não faz nem uma, nem outra coisa corretamente. Sua mente está tensa, agitada, perturbada e não desfruta do que está fazendo. Esta é a razão de muitos se sentirem infelizes e descontentes com o momento presente e com seu trabalho. Consequentemente são incapazes de entregarem-se por inteiro ao que aparentemente estao fazendo. Os homens habitualmente não vivem seus atos no presente, mas os vivem no passado ou no futuro. Parecendo fazer qualquer coisa aqui, nesse mesmo momento estão distantes, nos seus pensamentos, nos seus problemas e preocupações imaginárias, perdidos frequentemente nas lembranças do passado, ou arrastados nos seus desejos e especulações sobre o futuro. Somos portanto criaturas do passado, produto do acumulo de emoções, experiências, registros do que foi. Ao desafio presente, por que reagimos com o condicionamento de nossas experiências anteriores e conclusões do passado? É que não vemos o que é real, verdadeiro e novo. Que é o real e verdadeiro? Serão os condicionamentos, o passado, o que não existe mais, ou o que pensamos ser? O que pensamos é o que pensamos, nada além disto. O futuro não chegou e quando chegar, tornar-se-á o presente. Assim, onde estará o que é certo, real e verdadeiro? Decerto que estará aqui e agora, na nossa frente, mas nós não temos a apreensão desta realidade, consciência dela. O primeiro passo para a paralização do pensamento conceitual é cortar a cadeia de conceitos e palavras associadas que inundam nossa mente. Devemos sustar nova invasão mantendo a concentração no presente, naquilo que é. A vida verdadeira é o momento presente, e não as lembranças de um passado que passou, nem os sonhos de um futuro que ainda não chegou. Aquele que vive no momento presente, vive a vida real e é o mais feliz dos seres. Num famoso verso, Gotama Buda disse: “Não corras atás do passado. Não busques o futuro, O passado, passou. O futuro ainda não chegou. Vê, claramente, diante de ti o Agora, Quando o tiveres encontrado Viverás o tranquilo e impertubável estado mental.” Certa vez perguntaram a Gotama Buda porque seus discípulos, que levavam uma existência simples e calma, tomando uma só refeição por dia, eram tão radiantes. O Mestre, então, respondeu: “Eles não se arrependem do passado, não se preocupam com o futuro, vivem no presente. Por isso estão felizes. Preocupando-se com o futuro e arrependendo-se do passado, os tolos ficam ressecados, iguais aos juncos verdes cortados ao sol”. Esta consciência vigilante de nossas atividades, consiste em viver o momento presente no próprio ato. De um modo geral vivemos na ignorância da realidade que nos faz viver dominados pelos apegos, ressentimentos, ma vontade, preconceitos, Ódio, orgulho, lamentações, desespero, etc. Para nos livrar desses males e interromper a continuidade do sofrimento (dukkha), Gotama Buda ensinou um método prático descrito no seu discurso sobre Estabelecimento da Plena Atençao ou Vigilância — Satipatthana Sutta. Este método denomina-se “Meditação de Plena Atenção”, “Vigilância” ou “Observação Pura” e equivale a vivermos plenamente o momento que passa, o instante presente, o “aqui” e o “agora” conscientemente. Se nos mantivermos atentos e vigilantes, seremos capazes de perceber o instante em que os pensamentos surgem e desaparecem de certa maneira associados com aquilo para onde nossa mente se dirige. Nada há de esotérico ou misterioso na prática da Plena Atenção. Não são necessários os cânticos, os simbolos visuais e a queima de incenso. Os objetos e temas de meditação estão ligados a fenômenos naturais: o corpo físico, as sensações (por exemplo, a respiração), as percepções, os objetos mentais e a consciência. Em suma, o nosso ser. TÉCNICA DA MEDITAÇÃO DE PLENA ATENÇÃO SENTADO A mente é como um aparelho que está constantemente conectado através dos órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua, revestimento do corpo e órgão mental com um “objeto” captado por intermédio desses mesmos sentidos, isto é, aquilo que é visto, ouvido, cheirado, saboreado, tocado e pensado. Vamos chamá-los de “objetos dos sentidos”, é que eles chegam à mente através da percepção dos seis sentidos. É chamado de “objeto do pensamento”, se for o caso de que tenha sido uma elaboração mental, como uma idéa, uma lembrança, uma consideração etc. A mente não pode ser independente de nenhum destes “objetos”. Quando a mente entra em contato com um desses “objetos”, o apego aparece se ele é agradável, ou a aversão se é desagradável. Como a mente esta em constante contato com um “objeto de pensamento” ou um “objeto dos sentidos”, em todos os instantes constantemente nela aparecem sentimentos como apego, má vontade, ressentimento, raiva etc. É evidente que se uma pessoa se encontra com a mente condicionada e consequentemente arrebatada por sentimentos como esses, além de permitir a continuidade do sofrimento que aí se origina, e incapaz de distinguir o bem do mal, o certo do errado, o verdadeiro do falso. Sendo assim, o problema é como neutralizar o aparecimento de sentimentos, tais como: ressentimento, má vontade, apego, etc., quando a mente entra em contato com um desses objetos. Sabe-se que somente um pensamento aparece de cada vez num de terminado momento, apesar de que a mente desatenta não consiga separá-los com precisão. Assim, quando a mente entra em contato com um objeto de pensamento ou um objeto dos sentidos, podemos estar vigilantes desse contato. Se a mente só capta uma coisa de cada vez, e estando a percepção bem desenvolvida, os pensamentos de apego e má vontade não poderão aparecer simultaneamente naquele determinado momento. Uma das condições essenciais e a renúncia durante o tempo em que ficarmos sentados. Renunciaremos a todos os desejos por mais intensos que eles se apresentem, ou seja, renunciaremos ao desejo de buscar, de possuir capacidades extraordinárias através da meditação, de escolher ou selecionar intelectualmente, assim como dar uma direção proposital a concentração da mente. Isto trará libertação mental. Renunciar também significa a ausência completa de esforços, no sentido de conseguir essa libertação, de compreender o significado das coisas e a razão da vida. Portanto, quando meditarmos, devemos fazê-lo com a mais despreocupada das intenções, com a naturalidade de um descanço a sombra de uma árvore depois de uma longa caminhada, como escutar o canto dos pássaros ou apreciar uma paisagem com prazer. Sem intenções, sem medos nem pressa, ficaremos apenas como observadores da nossa mente e do nosso corpo, sem aversão ou apego as sensações ou pensamentos agradáveis, desagradáveis ou indiferentes que nela apareçam. Desta forma, durante nenhum instante dirigiremos a nossa mente. Permaneceremos apenas como expectadores de tudo para onde o pensamento se dirige. O pretexto frequentemente utilizado de não termos um momento sequer para a prática da meditação consciente, não passa de um subterfúgio da mente para dissimular o nosso apego ao tempo em ocupações aparentemente mais importantes, quando não for o caso de torpor mental. Fechemos os olhos… e deixemos o pensamento fluir como um rio — desimpedidamente, assim como se estivessemos sentados numa pedra contemplando a água que passa, sem nada julgar, apenas observando aquilo que ela traz e leva consigo: galhos, folhas secas, lama, flores, etc. Também ficaremos como expectadores da nossa mente, sem apego e sem aversão, sem facilitar a chegada ou dificultar o aparecimento de pensamentos e sensações agradáveis, desagradáveis ou indiferentes. Temos a tendência de buscar satisfação em tudo e, por esse motivo, estamos sempre predispostos a acolher pensamentos que nos dão satisfação e rejeitar os que nos desagradam. Tudo contemplaremos sem apegos ou aversões, sem ver o bem nem o mal. Assim podemos observar que as ideias e pensamentos como surgem, morrem. A impermanência é a lei a que tudo está sujeito neste mundo. No fluir da mente, na correnteza da vida, nada fica, como folhas mortas que passam nas águas de um rio. Como se estivessemos sentados a margem da correnteza mental, nossa atenção deverá fixar-se constantemente no fato de que estamos sentados, isto é, deveremos estar plenamente atentos de que estamos sentados. O fato de concentrarmos a mente no “estar sentado”, não deve requerer um esforço exagerado, pois assim nossa atenção estará comprometida. Devemos ter consciência, em seguida, de que algumas partes do nosso corpo estão em contato com o chão ou com a cadeira. Desta forma, nossa atenção não estar’s apenas no estar “sentado” mas também no “encostado”. Essa atenção adicional nos fará conscientes do fato de que não estamos apenas sentados, mas que nosso corpo esta em contato com o chão ou a cadeira. Como resultado, nossa ccncentração estará mais firme. Deste modo, durante o exercício observaremos continuadamente que estamos sentados e que nosso corpo esta tocando o chão ou o assento. Dirigiremos, então, nossa atençãao a sensação física produzida pelo contato da passagem do ar nas narinas, e observaremos o ar entrando e saindo. Não devemos forçar a respiração se ela estiver leve, assim como não devemos tentar regularizá-la, se ela estiver descontrolada. Não devemos interferir de modo algum no rítmo respiratório, seja qual for. Devemos respirar normalmente observando somente a sensação do toque do ar nas narinas. Quando a mente se desviar da observação do toque do ar nas narinas, acompanhamo-la para onde ela for. Suponhamos que apareça um pensamento de qualquer natureza, uma lembrança, uma dúvida, uma fantasia. Este pensamento deve ser observado somente como um pensamento sem apego se for agradável e sem aversão se for desagradável. Que fique bem claro a nossa posição de observador e não de juiz da nossa mente. Assim, qualquer que seja o pensamento deverá ser ele observado com equanimidade, como se nos o observassemos de fora, sem reação subjetiva, como um sábio observa um objeto. Não devemos observar subjetivamente como “meu pensamento”, mas objetivamente como “um pensamento”. É necessário não esquecer a ideia ilusória do eu, e não observar o pensamento como: “eu estou pensando”. Muitas vezes, um pensamento traz consigo emoções ou sensações agradáveis, desagradáveis ou indiferentes (neutras) como: a alegria, o medo, a angústia, a dúvida, a perplexidade. Assim sendo, observaremos também o sentimento que surgir. Podemos, então, observar como o pensamento surge com clareza se não for perturbado pela aversão, e como desaparece com facilidade se não for retido pelo apego. Se, durante a contemplação, ouvirmos algum som, sentirmos algum cheiro ou percebermos qualquer outro estímulo que traga novos pensamentos, estes serão apenas observados, voltando a atenção para entrada e saída do ar pelas narinas. Qualquer que seja o estado da mente durante a meditação, inquieta, tranquila, divagante etc. este fato deve ser também simplesmente observado. Neste exercício, se tivermos a intenção de engolir a saliva, simplesmente observaremos esta intenção e a seguir o ato de engolir, quando então novamente voltaremos a atenção a respiração. Isso sucessivamente será feito com qualquer objeto que surgir na mente. A NOTA MENTAL Ao iniciar o treino de concentração na respiração, o praticante para não se envolver ou participar nos pensamentos, sensações, ruídos, etc., poderá utilizar uma nota mental adequada ao que ocorrer na sua mente. Assim, aparecendo um determinado pensamento, o mesmo deve ser observado com a nota mental “pensando, pensando…”, observando ou apenas como pensamento, até que o pensamento surgido desapareça; retornando então o praticante sua atenção para a respiração. Surgindo uma coceira, a nota mental será — “sentindo, sentindo…”; ouvindo um ruído, a nota mental será “ouvindo, ouvindo”…; e assim por diante até a sensação desaparecer, retornando o praticante sua atenção para a respiração. Além da nota mental específica pode-se empregar a expressão “e daí…” que muito auxilia o praticante a não se envolver nos diferentes assuntos que surgem na mente, tais como: pensamentos, lembranças, sensações de qualquer natureza etc… Por exemplo, se durante a meditação surgir uma lembrança, observar o fato apenas como lembrança, anotando “e daí…”, prosseguindo a atenção na respiração, como já foi explicado. A observação vigilante tem por fim não deixar a mente se envolver pelo fio imperceptível dos condicionamentos (pensamentos discursivos, reflexões, lembranças etc…). É bom lembrar que o objetivo da meditação e a contemplação ou observação pura do momento presente, daquilo que é, bom ou mal, agradável, desagradável ou indiferente. Portanto, no caso de estar a mente inquieta, não faremos esforço algum para que ela se concentre, observando apenas o seu estado de inquietação. Se surgir uma sensação dolorosa, o que comum as pessoas não habituadas a imobilidade da meditação, observaremos a dor, anotando “e daí…”, mas evitaremos mudar a posição, observando já nesse caso a intenção de nos acomodarmos melhor, bem como a aversão que a dor nos traz. Ao sentirmos uma coceira, ela será observada como sensação sem que, no entanto, deixemos de observar o desejo de coçar. Está claro que, se uma dessas sensações atingir níveis insuportáveis, nada nos impede de movermos algum membro, contanto que estejamos conscientes disto, movimentando nos o mais vagarosamente possível, observando cada movimento detalhadamente, e quando a mão tocar o ponto que incomoda — observando o contato. Se surgir o desejo de parar a meditação, observemo-lo simplesmente como intenção. Se estivermos irritados, cansados, sonolentos ou com quaisquer outras sensações como emoções, visões ou percepções, continuaremos sempre observando cada uma delas apropriadamente, sem apego ou aversão. Por exemplo, suponhamos que estejamos coléricos, dominados pela má vontade e pelo ódio. Resulta curioso e paradoxal que a pessoa colérica não tenha realmente consciência de que esta colérica. Porém, no instante em que se torna consciente da presença desse estado na sua mente, começa a controlar-se e apaziguar-se. Devemos examinar sua natureza como surge e desaparece essa cólera. O importante é também não pensar “estou colérico” ou “minha côlera”, mas ter consciência do estado da mente colérica e permanecer atento a este fato, isto é, observar e examinar de um modo objetivo a mente dominada pela cólera. No caso específico da cólera não é transformá-la em mansuetude, mas sim, dela estar plenamente consciente. Havendo o apercebimento puro e simples do fato, aquilo que é se extingue. Não é preciso necessariamente que desejemos essa extinção e nos esforcemos para isso. Tal desejo e esforço longe de conduzirem a extinção, irnpedem-na. Difícil é o apercebimento pronto que nos condiciona, mas no momento em que nos apercebemos desses condicionamentos, eles podem cessar e serem destruídos. Esta é a atitude que se deve adotar no tocante a todos os estados mentais (sentimentos, emoções, etc.). “É o conhecimento do obstáculo o fator que libera, e não o esforço para dele nos livrarmos. É só quando se compreende a sua limitação que o pensamento limitado deixa de existir.” Krishnamurti. Quando nenhum pensamento ou sensação surgir na mente, voltamos novamente nossa atenção para a respiração, até que com a concentração natural a que a mente vai sendo submetida a observação pura, menos pensamentos surgirão, e quando isso acontecer, eles aparecerão com muita clareza. Do mesmo modo podemos comparar a mente com um lago cuja superfície está continuadamente encrespada pelas ondas; só poderemos ver o fundo quando a agitação cessar e, consequentemente, a água se tornar clara e tra
nsparente. Assim, nossa atenção vai ficando concentrada unicamente no ato de inspirar e expirar o ar pelas narinas e nada mais, até que chegue o momento em que desaparece a própria atenção na respiração. Somente então podemos dizer que a nossa mente está começando a ficar concentrada e tranquila. SENSAÇÕES QUE PODEM OCORRER DURANTE A MEDITAÇÃO Em certas ocasiões pode acontecer que o praticante se surpreenda balançando o corpo para a direita e para a esquerda, o que não deve ser motivo de preocupação. Entretanto, ele não deve procurar sentir nenhuma satisfação nisso nem desejar que esse fato se repita. Ao mesmo tempo deve saber que, se dirigir a sua atenção a este balanço, este cessará automaticamente. Se aparecerem tremores, deve proceder da mesma maneira. À medida que se desenvolve a contemplação poderão surgir, de vez em quando, algum estremecimento ou um arrepio que passa pelas costas, ou mesmo pelo corpo todo, o que nada mais é que uma sensação de interesse e de prazer — piti. Em alguns casos, tão logo se verifiquem alguns progressos na prática da meditação, podem surgir sensações dolorosas, impressão de engasgo ou de asfixia, como também sensação de calor ou de frio. Essas diferentes sensações não devem preocupar, são fatos comuns e sempre presentes em nós. Como a mente em condições habituais está atenta a estimulos de maior interesse, essas sensações passam desapercebidas. Com o desenvolver da contemplação, as faculdades mentais se tornam mais claras e temos melhor consciência destas sensações. Prosseguindo firmemente na contemplação, estas sensações observadas aos poucos cessam. Se o praticante vacila, parando a meditação devido a estas impressões, nunca se libertará delas. Entretanto, prosseguindo com determinação, conseguirá libertar-se destas sensações definitivamente. Durante a meditação pode acontecer que sobrevenha a sensação de estarmos por alguns instantes fora do corpo, e voltarmos depois de concluido o exercício. Não se aconselha cultivar esta sensação; porém, quando isto ocorre durante a meditação, observar o fato e não se assustar. Quando chegarmos ao término da meditação, devemos observar a intenção de levantar. E enquanto nos levantamos, mantermos a vigilância a cada um dos movimentos desta sequência nos mínimos detalhes, como a preparação dos membros, o mover das mãos e dos pés, o soerguimento do peso do corpo, o esticar-se, e assim por diante. Os movimentos do praticante devem ser vagarosos. Estes movimentos, executados no ritmo normal, perturbariam a continuidade da atenção, deve comportar-se e mover-se de modo a não interromper a sequência da concentração. Logo a seguir poderá continuar o exercício da meditação no caminhar. EXERCÍCIO DE PLENA ATENÇÃO NO CAMINHAR O praticante deve procurar um lugar tranqüilo, onde possa caminhar livremente sem ser perturbado: um simples quarto, corredor ou jardim. O essencial é caminhar simples, natural e lentamente. Ao caminhar, a atenção deve estar concentrada no movimento das pernas e dos pés. Ao atingir o fim do caminho, há necessidade de voltar-se e caminhar em direção contrária. Temos consciência disso quando faltam poucos passos para alcançar o limite do caminho, neste caso devemos apenas observar a intenção, de modo a evitar a meia volta automática. Devemos observar mentalmente todos os pormenores, identificando todas as fases do giro até a retomada do caminhar lento de volta. Várias vezes temos a tentação de dar uma olhada em alguma coisa, impulso este que deve ser simplesmente observado como qualquer coisa que distraia a atenção no caminho, observar o fato sem se deter em seus detalhes, voltando imediatamente a atenção para os movimentos do caminhar. Não há necessidade de forçar a mente voltar aos passos. Logo que a concentração é restabelecida, a mente por si própria automaticamente dirige-se a isso. O controle dos sentidos é descrito no budismo na observação “naquilo que se vê, ver somente o visto; naquilo que se ouve, somente o ouvido; no que se pensa, somente o pensado; mesmo no caminhar, somente o caminhar.” Assim, na prática da concentração vendo um objeto, não devemos ser cativados pela sua forma ou detalhes, o mesmo deve ser feito em relação aos outros sentidos. Quando a mente está agitada, a marcha automaticamente torna se mais rápida; se pelo contário sonolenta, mais vagarosa e quando a mente volta tranquilidade, a marcha segue um ritmo normal lento. Em nenhuma ocasião deve-se ter a preocupação de regular a marcha, mas simplesmente observá-la. Em certas ocasiões, quando por motivos páticos não for aconselhável andar vagarosamente, recomenda-se a marcha normal. Isto pode ser praticado na rua, sem despertar atenção. O importante é que estejamos com a mente concentrada no caminhar, obrigando-a a abandonar sua habitual e incessante atividade dispersa. PLENA ATENÇÃO NA VIDA COTIDIANA Muitas coisas poderão ser compreendidas pela mente capaz de permanecer atenta por longo período de tempo. Desta maneira a consciência atingirá níveis mais elevados, e a intuição desenvolvida nos dará esclarecimentos impossíveis de alcançar pela função intelectual costumeira. A media que a prática da meditação se desenvolve, desenvolvemos a capacidade de observar o contato fisico e mental em sucessão dos seis órgãos sensoriais com os seus respectivos objetos. No ocidente homens célebres em todas as épocas e de diferentes ramos de atividades, obtiveram resultados intuitivainente devido ao seu concentrado poder de atenção. A atenção concentrada desenvolve a intuição e tornam mais claras e rápidas as faculdades de raciocínio, análise e decisão, como também os sentidos obtêm mais agudeza, finura e perspicácia. No treino da meditação pode acontecer que a concentração, em alguns indivíduos, transforme-se num hábito quase involuntário, tornando-os escravos dela, esquecendo de tudo o mais, negligenciando, muitas vezes afazeres e obrigações necessárias. Tal atitude ou hábito na vida cotidiana é nociva. Estes involuntariamente tornaram-se escravos de seus hábitos, em vez de senhores das suas mentes. Vêm a ser sonhadores distraidos de olhos abertos e não observadores atentos de raciocínio correto. Deveríamos adotar progresivamente o treino da meditação acima descrito nas nossas atividades cotidianas, embora isto seja difícil nas condições em que vivemos, especialmente nas grandes cidades. O importante da meditação de Plena Atenção é desenvolver em todos os momentos da vida a vigilância e consciência de nossas emoções, palavras, pensamentos e ocupações em todas as horas e situações. Pela maior capacidade de observação a tranquilidade interior se desenvolve e a consciência mais lúcida torna o homem mais senhor de si. Isto é possível mesmo para pessoas de muitos afazeres e responsabilidades que pretendem não ter tempo para meditar.Observar e estar atento ao momento presente é meditação, seja na leitura de um livro, seja na realização das diferentes atividades diárias. A meditação de Plena Atenção não interfere na realização de nosso trabalho cotidiano. Pelo contrário, devemos concentrarmo-nos unicamente no que fazemos. Assim, quando comemos, devemos estar conscientes do comer; quando evacuamos, devemos estar conscientes disto etc. No decorrer do dia, quando executando uma determinada tarefa, ao percebermos que a mente se desvia do objeto da nossa ocupação, imediatamente observamos este fato e logo a seguir retornamos a atenção a tarefa que estavamos executando. Há em nos uma constante preocupação em pensar nas coisas que devemos lembrar e fazer para mantermos o controle dos fatos. Mas o certo é que a mente deveria permanecer tranqüila e passar a funcionar eficientemente apenas quando solicitada, lembrando-nos e orientando-nos em nossos afazeres, resolvendo nossos problemas e dificuldades. A mente pode ser comparada a um arquivo, que deveria ser utilizado somente quando solicitado.
Entretanto, o que acontece e não temos consciência disto, é uma incessante tagarelice e desatenção, desgastando-nos inutilmente. Apenas uma pequena parte dos pensamentos que ocupam nossa mente é funcional. A maior parte do que pensamos é inútil. É necessario estarmos vigilantes e atentos a todas as atividades, pois nossos atos e pensamentos de um modo geral são executados quase que automaticamente pelos condicionamentos do hábito. Não percebemos a maioria deles, isto nos sobrecarrega e nos desgasta de tal forma, que inibe e perturba nossa capacidade de trabalho e de energia criadora. Carpenter escreveu: “A capacidade da maquina mental aumenta consideravelmente quando a empregamos com concentração e só para um determinado trabalho de cada vez, como quando a deixamos também parada depois de concluido o respectivo trabalho. Ela vem a ser assim um verdadeiro instrumento que se põe de lado, depois de ter sido utilizado.” RETIRO DE MEDITAÇÃO Não há dúvida que levar uma vida retirada das agitações e dificuldades, longe dos ruidos e das freqüentes solicitações é muito agradável. O retiro num mosteiro de meditação, a fim de aperfeiçoar a mente e o caráter ou mesmo como exercício moral e espiritual, fortalece-nos para que ao sair possamos prestar melhores serviços ao meio social em que vivemos. Mas certamente o merito não é menor daquele que pratica o budismo no meio dos seus semelhantes, ajudando-os e prestando-lhes serviços. Os mosteiros foram construidos com a finalidade de abrigar monges, isto é, pessoas que consagram a vida inteira ao seu desenvolvimento espiritual e para auxiliar e orientar o desenvolvimento daqueles que os procuram. Desta forma, os mosteiros budistas tornaram-se além de centros espirituais, núcleos de estudo e de cultura. A meditação de plena atenção nos retiros é praticada durante períodos de tempo variável de três a vinte e um dias. A meditação no retiro abrange o dia inteiro até a noite. Ali são praticadas as diferentes modalidades de meditação, sentada, anando, trabalhando, etc., já descritas anteriormente. Ao acordar pela manha o treino de meditação é logo posto em pática e se prolonga até o anoitecer. O sono é um estado de subconsciência. É semelhante ao primeiro estado de renascimento da consciência, e ao último estado de consciência no momento da morte. Este estado de fraca consciência diminue a capacidade de concentração, não permitindo a contemplação. (Referências bibliográficas: Walpola Rahula “L’enseignemente du Bouddha”; Apostilas da S.B.B.; Yogue Ramacharaca “Raja Yoga, lições sobre desenvolvimento mental”). MEDITAÇÃO Aquele que quiser ouvir a Voz do Silêncio, o som sem som, terá de aprender a natureza da concentração perfeita. A mente é a grande assassina do Real. Que o discípulo mate o assassino. Porque, quando a sua própria forma parecer irreal como o parecem ao acordar todas as formas que ele vê em sonho, quando deixar de ouvir os seres múltiplos, então poderá divisar o Uno, o som interior que mata o exterior. só então, ele deixa a região do falso para chegar ao reino do verdadeiro. Antes que sua alma possa ver, e necessário conseguir a harmonia interior, e os olhos da carne se terem tornado cegos a toda ilusão. Antes que a alma passa ouvir, o homem tem de se tornar surdo aos rugidos como aos murmúrios, aos gritos dos elefantes em fúria, como ao sussurro prateado do pirilampo de ouro. Antes que a alma possa compreender e recordar, ela deve unir-se primeiro ao Falador silencioso, como a forma que é dada ao barro se uniu primeiro ao espírito do escultor. Então a alma poderá ouvir e recordar-se e ao ouvido interior falará a voz do Silêncio! Esta terra, ó discípulo ignaro, não é senão a entrada para o crepúsculo que precede a verdadeira luz, — a luz que nenhum vento pode apagar, e que arde sem óleo nem pavio. A não ser que ouças, não poderás ver. A não ser que vejas, não poderás ouvir. No silêncio, ouvirás a voz do teu interior! (Do livro dos preceitos áureos tibetanos )

Registro de Publicação do Lotus

Registro no Ministério da Justiça: n° 1.511 pág. 209/73


Agradecemos ao Sr. Rogel Samuel pelo material fornecido.