Revista Lotus – Costumes e regras monásticas na Tailândia e Sri Lanka

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL
Estrada Dom Joaquim Mamede 45, Lagoinha, Sta. Tereza
Rio de Janeiro

ANO I 1975 Nº 1

Editor Responsável: GEORGES DA SILVA
Redatora Chefe: RITA HOMENKO
Colaboradores: Marco Antonio Arantes
Carlos Kassab
Clarisse de Oliveira
Rogel de Souza Samuel

Editorial
Resumo histórico da SBB
As origens e o surgimento do Budismo
Os fundamentos do Budismo
Introdução ao Zen
A difusão do Dharma no Tibet
Meditação
Costumes e regras monásticas na Tailândia e Sri Lanka

Informativo
Capas

COSTUMES E REGRAS MONÁSTICAS NA TAILÂNDIA E SRI LANKA (CEILÃO)

(Relato enviado em 1974 à S.B.B. por Kaled Amer Assrany)

Non Kai, 14 de outubro de 1974

Queridos membros,

Estou muito bem de saúde e felicidade, espero que esta carta encontre a todos vocês gozando de saúde, paz, alegria e felicidade. Hoje, 14 de outubro de 1974, completam-se exatamente 5 anos e 24 dias que deixei o Rio de Janeiro. 5 anos que o meu Karma me obrigou a estar longe do Brasil a de todos aqueles que um dia amei e considerei como “meu”. Muitas águas já rolaram, muitos acontecimentos já se desenrolaram. Parece inacreditável como o tempo voa. Cinco anos é muito tempo, por um lado parece que ainda não se passou um ano, mas por outro lado, parece que já se foram cinco séculos.

Estou escrevendo de uma cidade chamado Non Kai, 614 km de Bangkok, no nordeste da Tailândia, no coração da grande peninsula do sudeste Asiático, justamente na fronteira com o Laos. A cidade se ergue ao longo de um grande rio chamado Mekong, cujas cabeceiras vem do Himalaia e corre em direção ao sul na Birmãnia, depois no Laos, Cambodgia e por fim o Vietnam (do sul). Diariamente quando os monges vão para receber comida do povo, perto do rio, eu avisto da outra margem o país chamado Laos. A Tailândia se orgulha de nunca ter sido colônia de nenhum país ocidental. A França que foi o primeiro país colonialista a chegar nesta península dominou o Vietnam, Laos e Cambodgia, mas não a Tailândia.

O nível de vida da Tailândia e incomparavelmente superior ao do Ceilão. Em Bankok há galerias como as mais luxuosas das grandes metrópoles norte-americanas, as vitrinas são maravilhosas, iluminadas durante todo o dia, como uma ofuscante claridade. Nos grandes cinemas há cartazes de filmes famosos de escandalosos tamanhos, da altura de todo o prédio do cinema. Há muitos cineramas, saunas, banhos turcos, anúncios e propaganda em letras garrafais e em cores variadas, é imenso o movimento nas ruas e avenidas, lojas e mercearias, abarrotadas de mercadorias, hoteis luxuosíssimos. Tudo isto nos dá a impressão de estar em um país ultra desenvolvido da Europa ou em uma cidade norte-americana.

Vocês não poderão imaginar como são maravilhosos os templos. Aqui não há estupas (pagoda) da grandiosidade das do Ceilão, mas são muito mais graciosas, com muito mais gosto, arte e bordado e beleza que no Ceilão. O Templo mais famoso é o do “Buda de Esmeraldas”; quase não acreditei no que estava vendo, e de se ficar estupefato, tão bárbaro é este templo. Possui três pagodas, uma completamente dourada outra com predominância de preto com fundo dourado e a terceira toda verde de diferentes tonalidades. O Templo de Mármore, onde passei um mês e meio e também muito famoso e se encontra em um bairro cujo nível de vida é dos mais elevados de Bangkok. Aqueles que mantêm o templo vão todos os dias pela manhã, entre 6 e 7 horas, em carros luxuosos para oferecer comida aos monges. A comida é uma verdadeira opulência, cada monge ganha uma quantidade que dá para pelo menos dois. Depois de oferecerem comida aos monges, eles jogam milho e arroz a milhares de pombos que vivem no templo, o que é um verdadeiro espetáculo todos os dias pela manhã. Na Tailândia a refeição principal é pela manha, não no almoço como no Brasil e Ceilão. Tem-se o costume de acordar muito cedo, pois às 6:00 horas já se tem comida pronta para se dar aos monges. A mesa Cingalesa e bem melhor que a da Tailândia; aqui a comida é sempre muito aguada e mal cozida e usa-se comer muito doce e vegetais crus como o giló, repolho, couve, vagem, talo de lotus, etc. Feijào como se usa no Brasil aqui, tanto quanto no Ceilão, não existe. Usa-se fazer doce de feijão e até picolé de feijão mas nunca salgado como no Brasil.

Com relaçao aos transportes o que me chamou a atenção foi a lambreta taxi e a bicicleta taxi que existe em grande quantidade. No Rio de Janeiro depois que foi proibido o uso de carroças puxadas por cavalos, começaram a surgir carrinhos de mão puxados pelo homem, que são indecorosamente chamados de cavalo-sem-rabo. Aquí não existe esta profissão do cavalo-sem-rabo, pois a lambreta ou a bicicleta de três rodas, fazem este papel com muito mais vantagem e dignidade. Tanto a lambreta como a bicicleta são para dois passageiros, no caso de ser taxi, ou com uma carroceria para carregar mercadorias, fazer pequenos transportes ou pequenas mudanças. É um ganha pão para milhares de pessoas em todo o país e uma felicidade imensa para a população, pois é muito mais barato que o taxi (carro) e é amplamente usado.

Na Tailândia existe apenas uma grande metrópole, pois a segunda cidade do país, Chiengmai (onde passei quase um ano) tem apenas 500.000 habitantes sendo, portanto, 6 vezes menor que Bangkok. Chiengmai se ergue dentre duas cadeias de montanhas, em um belo vale; nas montanhas há uma densa floresta, onde se ergue o templo onde fiquei. Esta cidade é uma das mais antigas do pais, há muitas ruínas de construções milenares, como uma muralha que antigamente protegia a cidade e muitos templos também em ruínas.

Este último inverno foi o mais rigoroso dos últimos 30 anos na Tailândia. Nunca passei um frio tão grande, pois os termômetros baixaram para 5°C entre os dias 24 de dezembro e 10 de janeiro. Vocês não poderão imaginar o que é 5°C quando se habita um quarto de madeira, sobre estacas, cheio de frestas entre as madeiras, tanto no piso como nas paredes, penetrando um ar gelado por todos os lados, cheio de imensas árvores em volta, cujo orvalho pingava pela manha como se tivesse chovido a noite.

Depois de quase um ano em Chiengmai, decidí ir para o Nordeste da Tailândia, onde sabia haver um templo nos arredores da cidade de Nong Kai com excelentes condições de prática. Viajei de Chiengmai a Bangkok (806 km), passei 5 dias no templo de mármore, fui ao dentista onde tive excelente tratamento, completamente gratuito e de Bangkok parti para Nong Kai. Esta cidade deve ter uns 100.000 habitantes, é muito estreita, mas é muito longa, pois cresceu ao longo do rio Mekong. O Nordeste é bem mais pobre que o Norte mas há mais templos e monges que no Norte e também no Sul, quanto mais pobre é a região, mais monges possui. Há muitos búfalos que ajudam nas imensas plantações de arroz. Tive a oportunidade de ver em Nong Kai a cremação de um corpo de uma mulher, que pertencia a uma das mais importantes famílias desta cidade. Eles conservam o corpo depois da morte, por três dias para que a família aceite, psicologicamente, que aquele corpo não é mais meu pai ou minha mãe, ou filho, ou filha, etc. e sim uma pilha de elementos malsãos que não merece outro destino senão o fogo. Uma banda de música vai para a casa do morto e entre intervalos de mais ou menos 15 minutos eles tocam uma música fúnebre. O caixão é colocado em uma caminhonete, enfeitada como um carro alegórico em carnaval, que vai para o campo de cremação, bem devagar com a banda atrás a tocar sempre a mesma música fúnebre e depois da banda a família e o povo. No campo de cremação, vários monges fizeram recitações e sermões, depois a família ofereceu mantos internos para os monges (eu também ganhei um). Uma imensa quantidade de crianças e jovens também acompanham o féretro, só depois é que entendi porque. É que a família do morto tem o costume de jogar grila, dinheiro em moeda para a meninada. É uma verdadeira farra e alagria não só às crianças mas também para os que contemplam o espetáculo. A família usa roupas pretas mas não parece haver muito sofrimento. Aqui a cremação não consome completamente os osssos como no Ceilão, pois coloca-se menos lenha que lá. Os pequenos pedaços de ossos que restam eles guardam nas pagodas dos templos.

Um monge canadense que conheci no templo de mármore era amigo de outro do Laos que havia prometido a ele permissão para entrar no Laos sem visto em passaporte. O canadense veio para Non Kai para cruzar a fronteira do Laos. Pouco depois a carta veio, mas com permissão para dois, então ele foi a meu quarto e me convidou a ir ao Laos, sem visto e tudo evidente, de graça pois justamente naqueles dias eu estava para fazer um relax, em minha prática e poucas horas depois estava pisando o solo de um outro país, o Laos. A paisagem é idêntica a do Nordeste da Tailândia o povo e a comida também idênticos mais a paisagem cultural é bem diferente. O francês é a segunda língua juntamente com o chinês, não há influência americana como na Tailândia. Passei seis dias apenas na capital Vietiane que possui 300.000 habitantes e é a maior cidade; o país possui quatro milhões de habitantes. O que mais me causou admiração foram os maravilhosos portais na entrada de quase todos os templos, alguns são imensos, chegando a ter 3 metros de grossura. Há na cidade um arco-de-triunfo, construido na praça onde se deram os principais combates contra os franceses na luta pela independência. O pais é muito pobre, nível de vida bem baixo, pouco comércio, na capital do país quase no centro, há ruas completamente descalçadas, muito poucos carros. Por falar em carros, na Tailandia, como no Ceilão e Índia, os volantes são do lado direito como na Inglaterra; no Laos, os volantes são do lado esquerdo como no Brasil e Estados Unidos. O arco-de triunfo é a mais alta construção do país, mais ou menos da altura de um edifício de 10 andares. É uma obra arquitetônica realmente admirável, mais ainda não está completamente pronto. Fomos ao alto do arco donde se avista toda a cidade. Um fato que me causou surpresa e satisfação foi ter encontrado no Laos o nosso delicioso PÃO que no Rio se chama bisnaga, tal e qual o pão brasileiro que é de origem francesa. Desde quando sai do Brasil, nunca mais havia comido do nosso pão, pois no Ceilão e Tailândia há vários outros tipos de pães, mas não como o nosso. Comí pão pra valer, mas alegria de pobre dura pouco, pois 6 dias depois voltei para a Tailândia e o pão terminou. Em muitos pontos da cidade há ainda pilhas de sacos de areia usados em lutas recentes pela unificação do país, O país alem de ser subdesenvolvido, não há recursos pois é pequeno e pobre.

Voltando a descrever alguns aspectos curiosos da vida da Tailândia, vou me referir agora ao Correio, que aqui é bem mais desenvolvido que no Brasil. Por exemplo o aerograma, tão prático e barato para a comunicação internacional, eu nunca havia visto no Brasil. Será que não existe aerograma no Brasil? Também o cartão postal para cartas-bilhete, dentro do próprio país, prático e barato, apenas 25 centavos (mais ou menos 6 centavos em cruzeiros) também nunca havia visto no Brasil.

Acossado pela necessidade, aprendi muitas palavras e números da língua Thai. O inglês aquí é bem mais comum que no Brasil, mas bem menos que no Ceilão. (Tenho usado várias vezes a palavra Ceilão, mas creio que vocês sabem que a ilha trocou de nome, agora o país se chama Sri Lanka).

Aqui eu não tenho pais (um era o irmão do ex-monge Anurudha e outro um amigo dele) como tive no Ceilão mas tenho aqui a ajuda da World Fellowship of Buddhists. Aqui me sinto muito mais livre que no Ceilão, pois é horrível sentir-se dependente como no caso dos pais; lá também as regras monasticas apesar de serem as mesmas, são aqui muito mais flexíveis que no Ceilão. Por exemplo aqui todos os monges, sem exceção tocam, carregam e possuem dinheiro, lá no Ceilão poucos são os que fazem isto. Aqui todos tomam leite depois das 12:00 horas, lá leite é considerado alimento e portanto eles não podem tomá-lo depois do meio dia. Aqui pode-se fazer a barba sem ao mesmo tem po raspar o cabelo, lá quando se faz a barba tem que raspar o cabelo também. Em alguns templos se usa raspar o cabelo duas vezes ao mês. Também entre os monges a hierarquia é aqui muito menos rígida que lá. Aprendí a andar em Bangkok, o que nunca aprendi em Colombo, pois lá nunca fui sozinho para lugar algum. Após quase um ano em Chiengmai, decidi vir para Nong Kai e vim por mim próprio, sem ter que pedir a ninguém para me levar ou para me carregar.

Um fato, com relação a vida monástica que talvez o ex-monge Anurudha nunca tenha mencionado para vocês, é que existem duas ordenações na Sangha. A primeira como Noviço que é chamado Samanera — Samana — isto é, asceta. Samanera significa aquele que está seguindo a vida ascética ou aquele que está no caminho da Sabedoria. E a segunda que é a mais alta ordenação como monge ou Bhikkhu. No Ceilão quando uma pessoa é ordenada depois dos 20 anos, tem-se o costume de passar dois, três ou mais anos como Noviço — Samanera, depois é ordenado como Bhikkhu.

Na Tailândia muitos são ordenados diretamente como Bhikkhus. Eu dilatei, digo adiei o mais que pude a minha mais alta ordenação, pois preferia ficar como monge noviço Samanera por serem mais simples e fáceis as regras monásticas, mas finalmente no dia 3 de outubro deste ano eu fui ordenado e somente agora, depois de quase cinco anos de vida monástica é que me tornei um monge, isto é um Bhikkhu. Não estou ainda certo, mas creio que a revista da W.F.B. vai fazer um artigo sobre a minha ordenação.

Em março do ano que vem, logo após o inverno irei para a Índia. Viajarei de Bangkok a Calcuta depois Nova Delhi. De Nova Delhi irei para o Himalaia onde se encontra o Dalai Lama e onde se estabeleceu o Budismo Tibetano. Ficarei no Himalaia até o fim de outubro, em princípio de novembro viajarei para o Sul para passar o inverso no famoso Aurobindo Ashram no estado de Madras. Em março de 1976 irei para o Nepal e talvez ficarei até novembro. Este plano poderá mudar, mas me pautarei por ele dentro dos próximos dois anos.

Poderia me estender bem mais sobre vários outros aspectos da vida e do povo e as minhas experiências neste simpático país, mas a carta já esta imensa e não quero cansá-los… Vamos agora mudar um pouco de assunto.

Não sei como está a situação da Soc. Budista do Brasil, pois já há bem mais de um ano que não temos a menor comunicação.Creio que vocês já encontraram uma solução para manter a sociedade viva e atuante, pois em hipótese alguma ela deverá ir a dissolução. Creio que todos os antigos membros que abandonaram a sociedade por divergências ideológicas já voltaram para a sociedade e todos estão cooperando pela causa comum. A Sociedade Budista não poderá estar ligada a uma única escola de Budismo doutra forma não deveria ter o nome de Sociedade. Se é uma sociedade dentro dela deverá se associar com muita tolerância todas as tendências e seitas que há no budismo. Intolerância religiosa e incompatível com o espírito do povo brasileiro e e também estranho ao Budismo. No Ceilão há apenas Theravada, mas aqui na Tailândia, há vários templos que são Mahayana e Theravada ao mesmo tempo, em Chiengmai, no templo em que passei quase um ano há vários quadros de Bodhisatvas e Patriarcas do grupo Mahayana e um imenso quadro de pintura do Budismo Tibetano. Monges Theravada vão e vem nos templos Mahayana e vice-versa, sem qualquer sinal de intolerância.

Por favor, escrevam para mim, podem mandar para o endereço da W.F.B. meu nome agora é: Bhikkhu Dhammanando — o termo Brasilay lay foi da ordenação do Ceilão, não o uso mais. Terminando desejo a todos muita saúde, paz, alegria, felicidade, êxito em manter a chama do Budismo vivo no Brasil e tudo o que há de melhor neste mundo, o irmão no Dhamma,

Bhikkhu Dhannanando
(Kaled Amer Assrany)

Um jovem brasileiro de Minas Gerais,
membro e curador da S.B. B., da qual é também sócio
benemérito, e que atendendo ao apelo da sua vocação
seguiu para Sri Lanka (Ceilão) e Tailândia onde se fez
monge Theravada.

Registro de Publicação do Lotus

Registro no Ministério da Justiça: n° 1.511 pág. 209/73


Agradecemos ao Sr. Rogel Samuel pelo material fornecido.