Revista Lotus – As origens e o surgimento do Budismo

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL
Estrada Dom Joaquim Mamede 45, Lagoinha, Sta. Tereza
Rio de Janeiro

ANO I 1975 Nº 1

Editor Responsável: GEORGES DA SILVA
Redatora Chefe: RITA HOMENKO
Colaboradores: Marco Antonio Arantes
Carlos Kassab
Clarisse de Oliveira
Rogel de Souza Samuel

Editorial
Resumo histórico da SBB
As origens e o surgimento do Budismo
Os fundamentos do Budismo
Introdução ao Zen
A difusão do Dharma no Tibet
Meditação
Costumes e regras monásticas na Tailândia e Sri Lanka

Informativo
Capas

A Origem e o Surgimento do Budismo – Dr. Marco A. Arantes

Há cerca de 2.500 anos atrás tinham início na Índia dois movimentos que determinaram, pelos seus pressupostos de igualdade, total emancipação e dignidade da pessoa humana toda uma reavaliação do homem enquanto indivíduo e como elemento partici pante da ordenação do universo. O Budismo e o Jainismo traziam consigo uma revisão dos valores impostos pelo Bramanismo então reinante na Índia, que impunham ao ser humano uma condição de absoluta passividade ante seu destino que se decidia ao arbítrio dos inumeros deuses e dos temidos e todo-poderosos sacerdotes, indispensáveis intermediários entre o homem e a divindade.

Fundado por Vardhamana (Mahavira), o Jainismo, que nos tempos atuais teve em Mahatma Ghandi um exemplar seguidor com a “resistência e a “não-violência”, é aqui mencionado apenas de passagem, e devido a coincidência histórica do seu surgimento juntamente com o do Budismo, em cuja aprectação nos deteremos um pouco mais sem contanto qualquer pretensão de explicá-lo ou definí-lo, visto que a própria visão que o Budismo formula do conhecimento questiona já de início o valor do didatismo, o simples amontoamento de dados informativos e que não determinem de imediato algum resultado positivo e iminentemente prático. Ou mais do que isso: Todo conhecimento, para ter qualquer valor além do meramente decorativo, já deve ser um resultado em si.

Empírico por excelência, o pensador Budista vê o exercício gratuito do pensamento, a teorização sistemática e a abstração que a nada o leva com profunda suspeita e como um aviltamento da inteligência. O próprio Sidarta Gotama lembrava que ao receber uma flechada a primeira coisa que ocorre ao indivíduo é arrancar de si a flecha que o fere, e não cogitar sobre a madeira com que foi feita ou sobre quem a teria disparado, ou porque o teria feito. Viver é um processo doloroso: a frustração, o medo, a doença, a morte, a separação, a tristeza são coisas que todos, mais cedo ou mais tarde acabamos inexoravelmente por conhecer. E não há de ser o cerebrinismo, a complicada tessitura das charadas metafísicas que curarão a dor que a vida traz consigo, e que é simplesmente a dor de se viver. O que preciso é arrancar a flecha, aqui e agora, lembrando que o nome do arqueiro é irrelevante e conhecê-lo, ao menos de momento, em nada nos ajudara.

Qualquer aproximação didática do Budismo é pois uma contradição à sua essência, valendo apenas como mais uma informação que se recolhe, tão boa ou tão má quanto uma outra informação qualquer. O homem que leu todos os livros que já se escreveram sobre o Budismo, desde o Tripitaka, é apenas um homem que sabe tudo o que já se disse sobre o Budismo, mas a não ser que ele viva o Budismo, ele nada sabe verdadeiramente sobre o assunto. Porque Budismo não se diz se faz se é. Caso contrário é história, ou folclore.

Foi com esse espírito que a SOCIEDADE BUDISTA DO BRASIL promoveu de dezembro de 1974 a março de 1975, um ciclo de palestras intitulado “I CURSO DE “INICIAÇÃO AO BUDISMO””, do qual esta revista é em parte uma tentativa de resumo e em parte continuidade. E é com esse mesmo espírito, sem qualquer pretenção doutrinária e sem qualquer proselitismo, que escrevemos esta breve história dos ensinamentos de Sidarta Gotama.

Há aproximadamente 5.000 anos os dravídicos perdiam as suas características nómades e se estabeleciam na região do Punjab e Sindh, construindo Harappa e Mohenjo-Daro, onde recentes escavações revelaram a existência de uma cultura urbana surpreendente mente desenvolvida. Ao mesmo tempo porém em que se encontravam testemunhos de uma cultura sofisticada, descobriram-se vastas regiões cobertas de ruínas calcinadas, cinzas e esqueletos, o que atestava também a belicosidade e a violência daqueles povos.

Aparentemente, o paradoxo das civilizações sempre acompanhou o homem no decorrer da sua história: na proporçao exata em que ele se agrupava formando civilizações e fundando cidades, possibilitando assim o florescimento de uma cultura mais minuciosa e mais diversificada pela comunhão de esforços dos elementos da urbe ou do grupo, ele experimentava também um recuo em seus valores humanos básicos tornando-se mais cruel e predatório. As ruínas dos incêndios e o grande número de esqueletos, testemunhas de terríveis massacres, nos apontam hoje a violência com que os dravidianos e os arianos, um outro ramo da mesma onda migratória desceram até à Pérsia vindos da Europa Central,
tendo finalmente consolidado, há cerca de 3.000 anos um império sólido e sempre expansionista com base na planíce do Gan ges. A partir desse estabalecimento inicial, em hordas sucessivas de ocupação, eles invadiram todo o resto da península impondo pela força aos povos conquistados o seu mando, a sua cultura e a sua religião.

Um povo autoritário, individualista e relativamente pouco numérico, eles lançaram mão de um sistema de estratificação social em castas que impunham onde chegava seu império, facilitando assim o controle das populações.

Havia a casta dos Brahmin (sacerdotes), a dos Kshatriya (guerreiros), a dos Vaishya (trabalhadores e comerciantes) a dos Sudra (povos conquistados).

Este sistema era sancionado pelo “Veda”, conjunto de textos sagrados da cultura ariana compostos de 3500 a 3300 anos, e que se dividiam em quatro livros: Rig, Atharva, Sama e Yajur-Veda. Originalmente um simples ritual de sacrifícios para obter os favores dos inúmeros deuses do universo, a religião védica gradualmente evoluiu a um sistema de aplicação mais prática, servindo aos propósitos expansionistas dos conquistadores arianos e a afirmação da casta tirânica dos Brahmins, que conseguiu levantar-se a níveis de absoluta e indiscutível autoridade.

Não havia para os Vedas a noção de mérito pessoal na conquista de uma vida futura mais propícia. Toda intermediação entre o homem e os deuses era feita através dos sacerdotes, e seus méritos eram decorrentes da quantidade e qualidade dos sacrifícios que apresentasse aos Brahmins, e dos rituais a que se submetesse.

Tal situação porém não se poderia prolongar indefinidamente: a época de Sidarta Gotama a literatura védica havia evoluido até os “Upanishads”, escritos em que se cogitava da salvação do indivíduo através de seus méritos pessoais, não mais através dos favores sempre negociáveis dos sacerdotes ou dos deuses, e mais: de uma realidade única universal, panteísta. Estavam assim lançadas as sementes filosóficas do Budismo.

Por esta época (entre 2500 e 2600 anos atrás), nascia da casa de Suddhodana, um príncipe da casta guerreira dos Kshatryia um menino, Sidarta Gotama, que passou à história com o nome de Buda. Cumpre esclarecer que a palavra “buda” não é um nome próprio, mas um título, o reconhecimento de um estado. “Buda” significa “o Iluminado”, ou “Desperto”, e Sidarta que nunca se disse o único Buda nem sequer que fosse o “O Buda” (como os Budas, ensinam os mestres, não proclamam a sua condição) acabou sendo transformado no Deus de uma religião que não fundou, e, a sua revelia, em senhor de homens que amou como a irmãos, não como a criaturas suas. Curiosamente suas últimas palavras, em que se referia a si próprio, e que resumiam toda a sua filosofia – “Tudo que aparece, desaparece. Fixai-vos na plena atenção”, foram rapidamente esquecidas – e ele, que elaborara um sistema que eliminava a ideia da personalidade e da individualidade acabou sendo transformado num Deus pessoal.

Note-se que a posição assumida por Sidarta Gotama e seus discípulos foi também determinada pela realidade social em que viviam, Os descendentes dos belicosos arianos, haviam à época de Sidarta, desenvolvido uma excelente técnica de fusão e moldagem de metais, o que lhes permitia o fabrico em larga escala de armas de guerra que tornavam ainda mais sangrento e cruel o seu já conturbado império. Este fato se somava as matanças de animais, a todo momento repetidas nos rituais védicos, além da desumanidade do sistema de castas e servidão e da tirania dos sacerdotes.

Conta a piedosa tradição Budista que Sidarta Gotama nasceu no mes de “Vesak” (maio), sendo levado ao templo onde os sacerdotes encontraram em seu corpo os 32 grandes sinais e os 80 pequenos sinais que predestinavam-no a ser um grande homem. O sábio Asita profetizou que ele seria, a sua escolha, um poderoso imperador ou um asceta que libertaria a humanidade dos seus sofrimentos.

Suddhodana, impressionado com a profecia, criou Sidarta numa area confinada do palácio, onde ele ficaria alheio as misérias do mundo. Aos 16 anos casou-se com Gopa Yasodhara, que lhe deu um filho. Os anos passavam-se alegres e descuidados, até que um dia Sidarta vê um mendigo, um velho, um moribundo e um morto, compreendendo de imediato a falsidade da vida que levava no pa1ácio do pai.

Disposto a buscar a verdade Sidarta despede-se então da família, resolvido a ir viver com os homens sabios, os ascetas das montanhas, tendo antes o cuidado de cortar os cabelos e trocar as roupas pelo manto de um mendigo e entregar a um velho criado a sua espada. Este gesto que a tradiçao registra simboliza já no início da busca de Sidarta a não-violência, que veio a ser um dos pontos principais da filosofia que ele viria a pregar anos mais tarde.

Assim, no seu 29° ano, Sidarta começou a cumprir a profecia de Asita, tornando-se de início um peregrino, discípulo do sábio Atara Kalana, que lhe ensinou a meditação iogue, através da qual ele chegou ao estado conhecido como “a região do nada”. Não convencido com os ensinamentos de seu mestre, Sidarta buscou o grande Uddaka Ramaputra que conseguiu levá-lo a um grau ainda mais elevado de concentração e percepção, e que no entanto estava ainda longe daquilo que ele buscava. Assim, abandonou seu mestre, e seguido de cinco companheiros embrenhou-se pela floresta de Uruvilva onde permaneceu por 6 anos em absoluto ascetismo, buscando o despertar do espírito através da mortificação do corpo. Conta-se que então Mara, deus dos prazeres, veio à terra para tentar Sidarta, fazendo tudo ao seu alcance para demovê-1o dos seus propósitos, nada conseguindo entretanto.

Após esses 6 anos de faquirismo porém, Sidarta percebeu que também a mortificação excessiva é em si uma forma de vaidade, e a busca desesperada de liberdade é apenas uma nova forma de prisão. Abandonou então a vida que levava, passando a adotar o “caminho do meio”, em que a virtude se encontra na eqüidistância dos extremos, no equilíbrio sem excessos que perturbem a mente.

Uma noite, quando contava 35 anos, sentado em meditação sob uma árvore, ele finalmente compreendeu a natureza da vida e do Carma que a rege, e atingiu a Iluminação, o Budato.

A partir daí, Buda põe-se em peregrinação, pregando a quem quisesse ouví-lo, e reunindo sempre ao seu redor grandes grupos de pessoas que procuravam a paz. Note-se que no decurso das suas pregações ele frisou repetidamente que não era “Deus”, nem uma forma individual de divindade, mas sim um veículo, um mensageiro da Verdade e da Paz, um enviado que ciclicamente vem ao mundo dos homens para esclarecê-los através do exemplo da Sabedoria. Sem qualquer preocupação para com a divindade, Buda situou no homem, e em suas potencialidades o alvo último dos seus ensinamentos. Num dos seus últimos discursos ele disse, praticamente resumindo a essência de Tudo o que ensinara: “Em todos os mundos, visíveis e invisíveis, existe uma força inteira e única, sem começo ou fim, sem quaisquer leis que não as suas próprias, e sem preferências ou aversões. Ela mata ou poupa sem nenhum outro propósito que levar avante o seu próprio destino. A morte e o sofrimento são as agulhas do seu tear, e o amor e a vida são os seus filhos. Mas não tentem medir o imensurável com palavras, nem sondar as profundidades do impenetável com a frágil corda do intelecto: é errado perguntar, e responder é errado. Nada esperem dos impiedosos deuses pois também eles estão submetidos as leis do Carma, e nascem, envelhecem e morrem para renascerem outra vez, sem serem capazes de libertar-se dos seus próprios sofrimentos. Não se esqueçam que cada homem conquista para si mesmo a sua própria prisão, assim, possa ele ser também capaz de conquistar um poder maior que o dos deuses”.

Através do Budismo, a Índia descobria o homem além da vontade dos deuses, além das castas, além de qualquer condicionamento. O próprio homem e seu destino foi pois a lição que o Buda deixou aos homens, vendo em cada um deles o autor da sua própria sorte.

E ele, que passara toda a vida ensinando as coisas que descobrira serem corretas e verdadeiras, mas que compreendera também a inevitabilidade de cada um seguir os caminhos da sua própria busca, replicou quando indagado sobre quais dos muitos ensinamentos existentes as pessoas deveriam seguir:

“Sobre ensinamentos que, por experiência própria, sabeis levarem à moderação, e não às paixões; ao desapego, e não à escravidão; ao decrescimo das vantagens humanas, e não ao seu acrescimo; à frugalidade; e não à cobiça; à satisfação, e não à insatisfaçao; à solidão, e não à companhia; a energia, e não à indolência, à satisfação no bem, e não à satisfação no mal, sobre tais ensinamentos podeis afirmar com certeza: Isto é a Regra. Isto é a Disciplina. Esta é a mensagem do Mestre”.*

*Edward Conze, Budismo sua essência e desenvolvimento, editora “Civilização Brasileira”, 1973.

Nem pai, nem mãe, nem parente algum nos fará tanto bem, quanto a mente bem dirigida.

(Dhammapada 43)

Registro de Publicação do Lotus

Registro no Ministério da Justiça: n° 1.511 pág. 209/73


Agradecemos ao Sr. Rogel Samuel pelo material fornecido.