OS BUDISTAS PROCURAM A PAZ (Transcrito da Revista O CRUZEIRO de 15 de maio de 1969)

A salvação (ou domínio de si) por esfôrço próprio, sem deuses, sem dogmas e sacerdotes mediadores.

Texto de CLAUDIO KUCK – Fotos de DOUGLAS ALEXANDRE


Agradecimentos a ROGEL SAMUEL.

O budismo organizado está no Brasil há poucos anos, mas já conta com 200 mil adeptos na colônia japonêsa de São Paulo. No Rio, há 500. Jovens, principalmente.

“BUDDHAM SARANAM GACCHAMI”, assim tem início o Dia Wesak, em reverência ao nascimento, maturidade e morte de Buda.

Lá fora o barulho infernal de carros passando, buzinando , gente gritando, correndo. No alto do Edifício Imperatriz Leopoldinense, no Rio, o silêncio, tranqüilidade, flôres, enfeites orientais, velhos, crianças, jovens, todos meditando envoltos em mantos e lençois brancos. São budistas cariocas comemorando o Dia de Wesak, porque é na lua cheia de maio que se reverencia o nascimento, maturidade e morte de Buda.

– Não falei pra ninguém em minha escola que sou budista. Não entenderiam nada. Quando tenho prova difícil trago livros e cadernos pra cá, ponho tudo aos pés da imagem de Buda e rezo. Êle sempre me ajuda.

Rosana, uma linda menina loura de grandes olhos azuis, é, com seus 10 anos, a mais jovem dos 500 budistas cariocas. Isis Maria com 12 anos, também trocou seu uniforme colegial por manto branco, para meditar com Buda. Só de vez em quando as duas não conseguem concentrar-se, preferindo olhar o que passa em volta.

Desde 1925 que o budismo penetrou no Brasil, mas apenas há poucos anos formou-se o primeiro grupo oficial. Em São Paulo, há perto de 200 mil adeptos entre a colônia japonêsa, que tem o professor universitário Ricardo Gonçalves em dos seus principais monges.

O DIA WESAK

D. Maria das Dores Pereira da Silva tem
grande poder de concentração

– BUDDHAM SARANAM GACCHAMI (Eu me refugio em Buda). Tem início o Dia Wesak. Todos sentados sôbre as pernas, corpo ereto, olhos semicerrados, impassíveis, ouvem e depois repetem os três refúgios e oito preceitos budistas. Tudo falado na língua morta pali, na qual Buda se expressava há mais de 2500 anos. Isis e Rosana não lêem os preceitos nas folhas distribuídas. Sabem tudo de cor. Uma aprendeu com o pai, outra com a avô.

Na porta da sede estão dezenas de pares de sapatos. Ninguém entra calçado lá. terminados os preceitos de evitar matar, roubar, cometer adultério, mentir, beber, dançar, cantar, fazer música, usar perfumes, jóias, óleos e coisas que tendam a tornar mais bela a pessoa, de evitar uso de assentos e camas luxuosos e altos e de se abster de alimentação após o meio-dia, todos voltam a calçar sapatos e saem silenciosos para tomar chá. Depois é a conferência e mais uma hora de meditação sentada. Os preceitos não são proibições, são atingidos em consciência voluntária pela meditação que eleva o homem.

ANURUDDHA BHIKKHU

O almoço: alimentos integrais e verduras; sem carne.
O monge Anuruddha é o primeiro a comer.

Muito alto, pele escura, cabeça raspada, feições delicadas, vestido com manto bege comprido, o reverendo Anuruddha Bikhu está no Brasil há dois anos. deixou cinco irmãos, pai e mãe no Ceilão e veio meditar com os budistas brasileiros. Não fala português, e nas conferências se expressa em pali ou inglês com intérprete. Sai pouco do sede porque sua figura chama atenção de todos na rua e os cariocas não cançam de lhe dirigir piadas. Anuruddha não se impressiona muito com isso, embora ressalve que na Alemanha e Inglaterra, onde também já estêve em missão, não sofreu qualquer ironia dos populares.

No almôço em que não entra carne, baseando-se em alimentos integrais e verduras, o monge Anuruddha é o primeiro a começar a comer. Depois êle também ajuda a servir a todos. No Rio a maioria dos budistas são mulheres.

– O sexo feminino sofre mais com os golpes da vida e é mais sensível aos apelos da fé budista, explica reverendo Anuruddha.

Murilo Nunes de Azevedo preside os budistas no
Brasil. Ricardo Gonçalves é monge em S. Paulo.

Para o monge Murilo Nunes de Azevedo, presidente da Sociedade Budista do Brasil e professor da Escola de Engenharia da PUC, chegou o grande momento do budismo, que já é praticado por mais de 600 milhões de pessoas no oriente “O mundo ocidental precisa do budismo. Nos Estados Unidos já há 5 mil centros. É que o homem moderno, vivendo oprimido por uma sociedade de consumo, neurotizado, prêso a falsos valores cada mais procura refugiar-se em algo que o liberte de tudo isto. A meditação budista lhe devolve novas perspectivas. Temos muitos psiquiatras budistas aqui.”

No Brasil o budismo está sendo seguido principalmente por estudantes, artistas, intelectuais, que vêem na filosofia budista uma saída. Até mesmo sacerdotes e freiras católicos têm ido de vez em quando meditar na sede.

EM PAZ COM BUDA E OS HOMENS

Na sede entra quem quer. Basta chegar, tirar os sapatos, pegar um lençol branco e sentar-se para meditar. Alguns, como Dona Maria das Pereira de Silva, têm grande poder de concentração.Há 42 anos que ela segue a fé budista, tendo retornando de viagem pelo Oriente recentemente.Outros têm dificuldades de meditar. Muitos jovens estudantes se interessam pelo budismo e tôda quinta-feira às 18:30 horas vão com os monges discutir a sua filodofia. Depois das 19 às 20 horas é tempo de meditação, para evitar o mal, fazer o bem e limpar a mente.

A sede é simples e acolhedora, com um altar que serve para ajudar a concentração, com imagens de Buda vindas da Tailândia e do Ceilão. No Dia Wesak o embaixador do Ceilão esteve presente. A comemoração durou dois dias e a maioria durmiu no própria sede. Uma jovem funcionária de agência de publicidade pediu fotografia dela meditando:
– Não fui trabelhar hoje, e se me desculpar dizendo que estava meditando num centro budista ninguém vai me acreditar. Meu chefe vai me pedir uma justificativa melhor. O jeito é comprovar com uma foto.

Os budistas cariocas têm particularidades. muitos jovens cabeludos e de barba crescida, talvez seguindo o exemplo dos Beatles, que andaram meditando no Oriente, sem falar nos hippies que estão se refugiando no Zen Budismo. Até budista de bermuda apareceu lá na sede. Claro que alguns foram só para fazer algo diferente, tudo não passando de atitude.

Os jovens afirmaram que o budismo pode também ser encarado não como uma religião, mas como treinamento físico e mental. O budismo procura a paz de espírito, não como outras religiões, que se baseiam em um ou mais deuses exteriores, mas em algo dentro do próprio individuo, o Verdadeiro Eu. E no Zen o próprio eu é posto de lado. Não possui qualquer vinculação com um Deus sobrenatural. É um caminho que guia o discípulo, mediante vida pura e pensamento puro, até a Suprema Sabedoria e a libertação de todo o mal. Não há Deus criador a ser temido e obedecido. Ao invés de colocar um indivisível Deus todo-poderoso acima do homem, Buda elevou o valor da humanidade. O budismo ensina que o homem pode alcançar a salvação pelo próprio esforço, sem depender de Deus ou sacerdotes mediadores. A salvação é o domínio de si. Não expõe dogmas em que se deva acreditar, crenças a serem aceitas de boa-fé, sem raciocínio, ritos supersticiosos. E em 2.500 anos de existência nenhuma gôta de sangue foi derramada em nome de Buda e nenhuma conversão jamais foi feita pela fôrça ou qualquer outro método de repressão.

Depois é a meditação andando. Anuruddha caminha de um lado para outro. Os outros também. Silêncio total. Isis e Rosana pensam. O budista de bermuda também medita. Ninguém se perturba com as luzes da televisão que filma tudo, nem com a movimentação dos fotógrafos. Todos estão em paz com Buda e os homens.